quinta-feira, 4 de abril de 2019

Desafios e Conquistas



Já trabalho há tantos anos em educação e sem dúvida hoje tive a experiência mais espetacular e gratificante deste tempo todo. Aconteceu em sala de aula com uma turma daquelas que oferece diariamente um verdadeiro desafio aos professores pelo ambiente onde está inserida a escola, pelos comportamentos indisciplinados dos alunos e pelos maus resultados escolares.

Confesso que quando me foi alocada esta turma para desenvolver um programa de empreendorismo que explora a localização de recursos naturais, como circulam entre os diferentes países e como são gerados negócios que produzem bens e serviços para os consumidores, fiquei assustada com tamanho desafio. Mas lá fui eu.

Na 1ª sessão caí ali de paraquedas, correu razoavelmente mas fiquei impressionada com a falta de conhecimentos destes alunos e com as suas posturas desafiantes em sala de aula. Na 2ª sessão já sabia para o que ia. Adaptei o programa à realidade destes miúdos, e até tive algumas boas surpresas porque conseguiram desenvolver tarefas mesmo sem conseguir explicar porque as faziam. Deparei-me com imensas dificuldades de expressão e autoestimas pelas ruas da amargura. Mas também encontrei um sentido de lógica pratico elevado e fora do comum.

Hoje foi a 3ª sessão. O programa era exigente e apelava a conhecimentos que pelo que me tinha deparado nas sessões anteriores achei que os alunos não tinham. Preparei um Plano B. Se não estiver a funcionar bem de uma maneira tentamos de outra.

Hoje tudo foi diferente. Comecei a aula a dizer. “Bom dia. Hoje vamos apenas brincar!”. Eis que de fez um silêncio absoluto, seguido de uma rapariga que contesta “Brincar? Nós não vimos para a escola brincar!” Respondo “Sim mas hoje é isso que amos fazer, a brincar a também se aprende” e comecei a distribuir material de um jogo em tudo semelhante ao Trivial Pursuit. Dividi grupos, expliquei brevemente como se jogava e deixei-os apenas com a frase “Quem conseguir ganhar um cartão de cada cor, ganha o jogo!”

Em sala está comigo a diretora de turma, que fica completamente estupefacta com a forma como os alunos se empenharam, falaram uns com os outros sem as agressões habituais, e até respondiam corretamente às questões dos cartões coloridos. Aos meus olhos parecia estar a acordar dum pesadelo de causa perdida.

Um aluno que já reprovou duas vezes, que este ano letivo está em risco de chumbar por faltas, que deixa testes quase em branco, ia respondendo invariavelmente corretamente às questões que lhe iam saindo nos diversos temas.  Foi o primeiro a conseguir o leque completo de cartões coloridos. E foram-lhe colocadas questões às quais nunca respondeu numa aula comum. Como é que este aluno, que tem um historial escolar tão mau consegue num contexto diferente destacar-se pela positiva?

Pergunto-me, que escola temos nós que não chega aos alunos? Será que as avaliações têm mesmo que ser testes?  Hoje tive a prova de que não, que por vezes é apenas preciso sair da caixa, fazer diferente, criar contextos que permitam que o melhor se revele.