quinta-feira, 30 de abril de 2026

Que seja feita justiça

 

Há quase um ano, a minha casa deixou de ser apenas um lugar. Deixou de ser o espaço seguro onde tudo fazia sentido e onde o mundo lá fora ficava, simbolicamente, à porta. Numa ausência que parecia banal, alguém entrou, mexeu nas minhas coisas, invadiu a minha intimidade. E, de repente, aquilo que era meu deixou de o ser por instantes, e isso foi suficiente para mudar muita coisa dentro de mim.

Mas não foi apenas um assalto silencioso. Houve um momento de confronto. Cruzei-me com o ladrão à saída da minha própria casa. Um instante que ainda hoje me atravessa. Houve tensão, houve medo real, palpável. Houve violência naquele encontro, e a imagem dele a apontar-me uma faca ficou gravada em mim de uma forma difícil de explicar. Foi o momento em que tudo deixou de ser apenas material e passou a ser uma ameaça direta à minha integridade, à minha vida.

E depois, o que encontrei lá dentro. Não foi só a ausência de objetos. Foi um cenário de destruição. Um rasto de desrespeito e caos. Coisas remexidas, partidas, desfeitas. Portas arrancadas, como se até os limites físicos da casa tivessem sido violentados. Cada divisão parecia contar uma história de invasão, como se o espaço tivesse sido despido da sua dignidade.

Não foi apenas o que levaram. Foi o que ficou. A sensação de violação, de insegurança, de perda de controlo. Durante muito tempo, qualquer barulho parecia um alerta, qualquer ausência um risco. A casa, que antes acolhia, passou a exigir vigilância. E eu, que antes confiava, passei a desconfiar.

Com o passar dos meses, as marcas não ficaram apenas na memória, passaram também para o corpo. Comecei a ter ataques de pânico inesperados, daqueles que chegam sem aviso e tomam conta de tudo: o coração acelera, a respiração encurta, e uma sensação de perigo iminente instala-se, mesmo quando nada está a acontecer. A ansiedade tornou-se uma presença constante, como um ruído de fundo difícil de silenciar.

Dormir, que antes era um refúgio, deixou de o ser. O sono tornou-se leve, fragmentado, inquieto. Muitas noites são interrompidas por pesadelos que me devolvem, de forma quase cruel, àquele momento, à invasão, ao confronto, ao medo. Acordo sobressaltada, com o corpo tenso, como se tudo estivesse a acontecer outra vez.

Agora, quase um ano depois, quando parecia que tudo começava lentamente a assentar, surge o julgamento. Fui chamada como testemunha. E com essa chamada vieram também memórias que eu tentei organizar, arrumar, talvez até esquecer um pouco. É como se abrisse uma porta que eu tinha fechado com esforço.

Sinto-me inquieta, ansiosa, como se tivesse de reviver algo que ainda não cicatrizou completamente. Não é apenas ir a tribunal. É voltar ao momento, às emoções, ao medo. É olhar, mesmo que indiretamente, para quem esteve na origem de tudo isto.

Ao mesmo tempo, há uma parte de mim que sabe que este passo faz parte de um processo. Que falar, testemunhar, dar voz ao que aconteceu também é uma forma de recuperar algum controlo, de não deixar que o silêncio apague o impacto do que vivi.

Mas isso não torna tudo mais fácil.

Há um equilíbrio difícil entre a necessidade de justiça e o peso emocional de reviver. E é nesse espaço que me encontro agora: entre o passado que insiste em reaparecer e a vontade de seguir em frente, com mais tranquilidade, mais segurança e, sobretudo, mais paz. Desejo profundamente que seja feita justiça.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Parabéns meu amor!

 

Hoje, no dia do teu aniversário, escrevo sobre ti.

Curioso como a vida, às vezes, começa pelos caminhos mais improváveis. Quando nos conhecemos, não houve faísca imediata, nem simpatia à primeira vista. Éramos quase opostos, tu, mais calado, fechado no teu mundo, com uma intensidade silenciosa que eu, na altura, talvez não soubesse ler.

Mas o tempo… o tempo tem uma forma muito própria de revelar as pessoas.

Pelo meio, cada um de nós trazia histórias. Relações que não resultaram, caminhos que deixaram marcas, feridas tatuadas que iriam desaparecer e com as quais tínhamos que aprender a viver. Talvez por isso nos reconhecemos devagar, com respeito, e como quem sabe o peso que o outro carrega.

E, sem darmos conta, aquilo que era apenas presença tornou-se conversa. O que era distância transformou-se em proximidade. E da amizade começou a nascer algo mais, algo feito de pequenas partilhas, de silêncios que já não incomodavam, de um estar que acalmava.

Hoje, olho para nós e vejo isso: uma relação que se foi construindo, feita de altos e baixos que não nos quebraram, mas nos ensinaram. Vejo o teu apoio nos dias em que me perco, e a tua forma quieta de ficar quando tudo em mim é tempestade. E vejo também as nossas diferenças, a tua teimosia assumida (que tantas vezes afirmas resultar de seres de carneiro com ascendente em carneiro), a esbarrar na minha forma de sentir.

Nem sempre concordamos. Nem sempre é fácil. Há dias em que as palavras falham, em que os silêncios pesam, em que ceder custa. Mas há também algo maior: a vontade de ficar, de compreender, de ajustar caminhos sem perder quem somos. Porque quando o sentimento é verdadeiro, há um lugar dentro de nós que sabe que vale a pena tentar com paciência, escuta e cuidado.

E é aí que nos identifico, na forma como, mesmo no desencontro, acabamos por escolher o encontro. Aceitamo-nos nas partes bonitas e nas que ainda estão a aprender a ser, com respeito por quem somos juntos e como pessoas com características próprias.

Sinto cumplicidade, companheirismo e esse “qualquer coisa” que não precisa de nome, porque apenas se sente. Está nos pequenos gestos, na forma como sabemos que estamos ali um para o outro nos bons e nos maus momentos.

No meio de tudo o que a vida já nos tirou e deu, tornaste-te o meu porto seguro, e espero ser também o teu. Hoje dei-te um âncora porque simboliza essa segurança, e a confiança de que estaremos sempre lá um para o outro.

Obrigada por seres quem és, e por me deixares ser quem sou ao teu lado.

Parabéns meu amor!


quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Páscoa que há em nós

 

Fui educada dentro de uma fé muito concreta, com contornos bem definidos, rituais que se repetiam ano após ano e palavras que aprendi antes mesmo de as compreender. Cresci no seio do catolicismo, entre missas de domingo, orações decoradas e uma ideia de Deus que, na altura, me parecia tão absoluta quanto distante. A Páscoa, em particular, era um dos momentos mais marcantes, carregada de simbolismo, silêncio e respeito.

Na aldeia onde nasci, e onde os meus avós viveram, toda a Quaresma era vivida intensamente, cheia de rituais sagrados, missas e procissões, mas simultaneamente com um certo recolhimento que convidava à introspeção.  Lembro-me da solenidade desses dias, do peso da Sexta-feira Santa, onde se vivia o luto por Cristo e não se podia comer carne porque isso representava o sangue do Senhor. E depois, o domingo, como um renascer, as cores alegres, as colchas nas janelas e as pétalas de flores por onde a procissão passava a celebrar a ressurreição de Cristo.

Houve, no entanto, uma fase da minha vida em que tudo isso se partiu. A perda de familiares próximos trouxe uma dor difícil de traduzir, um vazio que nenhuma palavra conseguia alcançar. E, nesse lugar de ausência, veio a revolta. Zanguei-me com Deus. Zanguei-me com a Igreja. Senti-me traída por uma fé que, até então, me tinha sido apresentada como abrigo. Afastei-me. Questionei. Duvidar tornou-se quase uma forma de sobrevivência.

Mas, curiosamente, foi nesse mesmo vazio que nasceu uma outra necessidade, mais silenciosa, mais íntima. A necessidade de encontrar sentido, de me ligar a algo maior, mesmo que já não soubesse dar-lhe um nome. Quando tudo parece desmoronar, há uma parte de nós que continua a ter de sobreviver, ainda que com dor. E foi aí que comecei a reconstruir a minha relação com o sagrado, fora das estruturas que antes conhecia.

Com o tempo, fui-me afastando das formas rígidas e aproximando-me mais da essência. Sou uma pessoa de fé.  Acredito que somos muito mais do que a vida medíocre que por vezes vivemos. Acredito que há algo mais depois do fim. Não deixei de procurar o sagrado, mas deixei de o procurar num único lugar. Sinto-me mais espiritual do que religiosa.

Não rejeito aquilo que me foi dado, pelo contrário, reconheço-lhe valor, raiz, identidade. E  tenho muita, muita saudade das pessoas que partilharam esses momentos comigo e já partiram. 

Mas aprendi que a fé pode ser mais ampla, mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais profunda. Comecei a olhar para outras religiões com curiosidade e respeito. Percebi que, por trás de nomes diferentes, rituais distintos e histórias próprias, existe muitas vezes a mesma busca: sentido, ligação, transcendência, amor.

Para mim, a Páscoa, deixou de ser apenas um acontecimento religioso. É um tempo de renovação, de deixar morrer o que já não serve, de abrir espaço ao que quer nascer. É um convite à introspeção, mas também à esperança.

Talvez acenda umas velas, vou certamente pensar em quem já partiu, e talvez me permita estar em silêncio comigo mesma, e, nesse silêncio, talvez encontre algo que reconheço como sagrado, porque em cada um de nós há uma energia divina. Só precisamos de a encontrar.

Páscoa Feliz!