Perdi a minha mãe demasiado cedo. Tinha apenas 16 anos quando o cancro ma roubou, depois de assistir a 7 longos anos de sofrimento. Tudo acabou, sem pedir licença, sem dar tempo para me preparar, como se o mundo tivesse decidido que eu tinha de crescer à força, de um dia para o outro. Há dores que não se explicam, apenas se carregam, silenciosas, persistentes, entranhadas nos dias e nas noites. A ausência dela não foi apenas um vazio, foi uma ferida aberta no tempo, um espaço onde ficaram palavras por dizer, abraços por dar, conselhos por ouvir.
Durante muito tempo, senti-me incompleta. Como se me faltasse uma parte essencial para entender a vida, para saber como ser, como sentir, como cuidar. Porque uma mãe não é só presença, é orientação, é porto seguro, é aquele amor que nos ensina o significado de tudo o resto. E nada nem ninguém a pode substituir,
E depois, a vida, com a sua forma misteriosa de continuar, deu-me a oportunidade de ser mãe. Não sem muita luta para o conseguir. Não sem passar por processos extremamente dolorosos. Mas voltaria a repeti-los sem hesitar. Consegui ter a minha menina, a minha razão de viver.
Hoje, olho para a minha filha e vejo nela tudo aquilo que me faltou e, ao mesmo tempo, tudo aquilo que renasceu dentro de mim. Ser mãe é um amor que não cabe no peito, que nos transforma de dentro para fora, que nos torna mais fortes e mais frágeis ao mesmo tempo. É viver com o coração fora do corpo, é sentir alegria nas pequenas coisas e medo nos silêncios mais longos.
A maternidade trouxe-me um sentido que eu não sabia que procurava. Ensinou-me a amar num crescendo, cada dia mais que o anterior, a proteger, a cuidar, a estar presente, como tantas vezes desejei que a minha mãe ainda estivesse para mim. Em cada gesto meu, há um eco dela. Em cada abraço que dou à minha filha, há um abraço que ficou por dar à menina que fui.
Ser mãe foi também uma forma de cura. Não apagou a dor da perda, mas transformou-a. Deu-lhe um novo significado. Fez com que o amor que não pude continuar a receber, agora possa ser dado, inteiro, profundo, incondicional.
A minha filha é tudo para mim. É luz onde houve sombra, é continuidade onde houve ruptura. É a prova de que, mesmo depois da maior perda, a vida encontra forma de florescer outra vez. E ela é sem dúvida uma versão melhorada e mim. O meu maior orgulho.
Ser mãe é a maior dávida que recebi da vida. Hoje celebro o Dia da Mãe como o calendário indica, mas acreditem, louvo esse papel todos os dias, por mim, e por quem me deu vida.
