quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Mãe Natureza

 

Há momentos em que a Natureza nos lembra, com uma simplicidade desconcertante, que somos apenas pequenos espectadores num espetáculo que não precisa de bilheteira, de palco ou de efeitos especiais.

Um eclipse solar é precisamente isso: a Natureza a mostrar-nos que continua a ser muito mais criativa do que nós. O Sol, a Lua e a Terra alinham-se por breves instantes e, de repente, o céu muda de cenário. A luz fica diferente, o ambiente ganha um ar misterioso e nós, cá em baixo, ficamos todos de pescoço esticado, a olhar para cima, como se tivéssemos acabado de descobrir o céu.

E há qualquer coisa de profundamente maravilhosa nisso. Porque, no meio da nossa correria, das contas, dos e-mails, das reuniões e das preocupações que parecem sempre urgentes, há um fenómeno que nos obriga a parar. A Natureza, sem mandar aviso por e-mail, consegue aquilo que muitas agendas de produtividade tentam há anos: fazer-nos levantar os olhos do telemóvel.

E é também uma boa bofetada de humildade. Passamos a vida convencidos de que controlamos tudo e depois a Lua passa à frente do Sol durante uns minutos e lembramo-nos de que, afinal, somos apenas passageiros desta enorme nave chamada Terra.

O mais extraordinário é que tudo acontece sem barulho, sem confusão e sem ninguém pedir autorização. Os astros simplesmente fazem aquilo que fazem há milhões de anos. Nós é que aparecemos com óculos especiais, máquinas fotográficas, telemóveis e uma enorme vontade de dizer: “Olha! Olha! Está a acontecer!”

A Natureza é assim: grandiosa, imprevisível, paciente e absolutamente indiferente às nossas pequenas dramatizações. Durante alguns minutos, lembra-nos que existe um universo imenso para além dos nossos problemas e que, por maior que pareça a nossa preocupação de hoje, há estrelas, planetas e luas a continuar tranquilamente o seu caminho.

E nós, pequeninos neste cenário gigantesco, fazemos o que podemos: paramos, olhamos para o céu e ficamos maravilhados.

E ainda bem.

Porque, às vezes, precisamos mesmo que o Universo nos dê um pequeno apagão… só para voltarmos a ver tudo com outros olhos. E convenhamos, com um eclipse é uma excelente maneira de pôr os pés na Terra.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

"Tenha a bondade de mauxiliar"


Há profissões de risco. E depois há o atendimento ao público... por e-mail.

Todos os dias abrimos a caixa de entrada com a esperança ingénua de encontrar um simples "Bom dia, gostaria de obter uma informação". Mas a realidade é outra. Encontramos sempre mensagens de exigências de quem tudo pode ter, mas nada tem que fazer. Às vezes anexos de dimensões épicas, fotografias tremidas com imagens que nos deixam de queixo caído, muitas vezes não pelo que enviaram, mas por não terem vergonha de enviarem tais coisas. E a bendita legislação copiada da internet, pois claro, porque lá diz o ditado de médico, e advogado todos temos um pouco… ou seria de médico e de louco? Bem, parece que neste caso vai dar ao mesmo! E inevitavelmente, a frase: "Agradeço resposta urgente.” Sim porque o meu caso é sempre mais importante que os dos outros!

 

Há quem nos escreva porque precisa de ajuda. E ainda bem. É para isso que cá estamos.

Mas também há quem nos escreva convencido de que basta enviar um e-mail para que as leis mudem, os regulamentos desapareçam e a administração pública descubra um botão secreto chamado "Fazer Exceção".

 

Explicamos, com toda a educação, que não é possível deferir o pedido. Recebemos resposta cinco minutos depois: "Li a vossa resposta, mas mantenho o pedido." Como se a legalidade fosse uma questão de persistência.

 

Depois há os clássicos:

"Já enviei este e-mail para dez entidades." "Se não responderem hoje, volto a enviar amanhã." E o incontornável: "Fico a aguardar resposta com a máxima brevidade", enviado... três minutos depois do e-mail anterior.

 

E quando finalmente respondemos de forma clara, fundamentada e completa, chega a pérola: "Não responderam ao que perguntei."

 

Mas, no meio desta montanha-russa eletrônica, existe um verdadeiro património da humanidade: os colegas. São eles que nos salvam quando temos que obter informações de 30 mil assuntos pra podermos informar outras 30 mil pessoas. São eles que pacientemente nos explicam o que se passa com isto e com aquilo, que encontram aquele diploma legal, ou aquele processo, e nos orientam quando tudo parece desmoronar.

Como diz o senhor do Metro “TENHA A BONDADE DE MAUXILIAR”  e eles auxiliam 😊

 

E pronto temos de rir depois do décimo e-mail do dia a pedir exatamente o que a lei não permite! Porque no fim do dia percebemos uma verdade simples:  as coisas resolvem-se com conhecimento, rigor e paciência. Mas só se sobrevive com humor, espírito de equipa e aquela maravilhosa entreajuda que transforma um dia difícil numa história para recordar... e rir, de preferência, longe da caixa de entrada!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

De capa e batina

Eu tenho uma teoria muito séria: alguém mexeu no relógio da minha vida enquanto eu estava distraída a fazer lanches, a procurar meias desaparecidas e a dizer “leva um casaco que está frio”. Não é possível haver outra explicação.

Porque ainda ontem a minha filha era um bebé.
Um bebé! Pequeno, redondinho, com aquele cheiro maravilhoso de creme e bolacha Maria esmagada na roupa. Ainda ontem eu andava com um saco gigante atrás dela, cheio de fraldas, chupetas, biberões, toalhitas e metade da casa às costas.

E agora? Agora vai ser licenciada.

Licenciada.

Uma pessoa passa anos a tentar ensinar uma criança a não comer plasticina, a não aceitar coisas de estranhos, a perceber que a gata não quer fazer penteados e usar ganchos boneca… e, de repente, essa mesma criança aparece-nos à frente a falar de carreira profissional, objetivos de vida e futuro.

Como?!

A sério, eu desconfio profundamente desta velocidade do tempo. Isto não foi natural. Houve claramente aqui uma falha temporal qualquer. Uma espécie de máquina do tempo escondida entre os TPC, as festas da escola e as máquinas de roupa para lavar.

Porque eu pisquei os olhos.

Foi só isso!

Eu pisquei os olhos e a criança que andava pela casa a gatinhar, com asas de fada, e um pé descalço transformou-se numa mulher adulta que vai à bênção das fitas.

À bênção das fitas!
Uma cerimónia onde uma mãe vai emocionalmente frágil, mas tenta fingir estabilidade enquanto tira 420 fotografias iguais.

E ela está enorme. Linda. Independente. Com opinião própria.
O que também é impressionante, porque houve uma fase da vida dela em que chorava descontroladamente porque eu  mandei maçã em vez de pêra para o lanche.

Agora fala de futuro com uma calma assustadora, enquanto eu continuo emocionalmente presa ao tempo em que ela me perguntava se a lua nos seguia de carro. Em que dizíamos "Bom dia Senhoras Gaivotas# a caminho da escola todas as manhãs, em que jogávamos ao carro amarelo e a outras coisas parvas.

E o mais estranho é que nós, mães, nunca acompanhamos verdadeiramente a idade dos filhos. Por dentro, continuamos a achar que eles têm sete anos. Só que depois olhamos para eles… e estão de capa e batina.

Entretanto, eu continuo sem perceber onde foi parar aquela menina pequenina que dormia agarrada a mim. Mas suspeito que ela ainda esteja ali, escondida atrás daquela mulher maravilhosa que cresceu depressa demais.

E depois há aquela parte absolutamente humilhante da maternidade: perceber que a filha já sabe mais coisas do que nós.

Porque houve um tempo em que eu era a Wikipédia cá de casa. Eu sabia tudo. Tudo, mesmo sem fazer ideia nenhuma!

Agora ela olha para mim com aquele ar de adulta instruída e diz coisas como:
“Isso não é bem assim, mãe…”E eu fico ali, a pensar:
“Olha esta miúda… eu limpei-te o nariz durante anos.”

E a tecnologia? Nem vamos falar da tecnologia.
Eu ainda me lembro de lhe ensinar a segurar num lápis. Hoje ela resolve problemas no telemóvel em três segundos enquanto eu continuo a carregar em botões aleatórios e a fechar coisas sem querer.

E agora chega a bênção das fitas.
E claro que eu vou chorar.
Vou chorar quando a vir entrar. Vou chorar quando ouvir a música. Vou chorar nas fotografias. Provavelmente vou chorar porque alguém espirrou ao meu lado. Mas vou fingir dignidade. Aquela dignidade típica das mães emocionadas que dizem:
“Eu estou ótima!”… enquanto limpam lágrimas com guardanapos de café.

Ser mãe é um pouco isto, passar metade da vida cansada e a outra metade emocionada. É querer que os filhos cresçam felizes, e ao mesmo tempo desejar secretamente que ainda peçam para dormir conosco quando têm medo da trovoada.

E por mais adulta que ela seja agora, por mais independente, inteligente e preparada para a vida, para mim haverá sempre uma parte dela que continua pequenina.

A mesma menina que me chamava a meio da noite.
A mesma menina que achava que um beijo resolvia tudo.
A mesma menina que, sem saber, transformou completamente a minha vida desde o primeiro instante em que lhe peguei ao colo.

Só que agora… de capa e batina.


 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Hoje é o teu dia mano, farias 50 anos!

 

Hoje é o teu dia mano, farias 50 anos!

Pergunto-me como seria ouvir a tua voz agora, ver o homem em que te terias tornado. Imagino-te com rugas de expressão junto aos teus olhos esmeralda, únicos, vibrantes, e que tantos ciúmes me deram quando éramos pequenos, por não ter uns da cor dos teus. Talvez tivesses os cabelos já grisalhos e a barriguita de quem gosta de passar bons momentos a conviver nos petiscos. E e quem sabe, terias uns dois ou três adolescentes a chamarem-te pai cota. Ai, ia adorar isso! 

Mas é estranho pensar nisso porque, para mim, continuas sempre com aquele sorriso jovem, com aquela presença viva que o tempo congelou. A vida levou-te cedo demais, com tantos sonhos por viver, tantas histórias por escrever, tantos anos roubados.

Perder-te foi uma dor impossível de explicar. Enquanto o meu coração se partia por te perder, existia também uma pequena parte de alívio por saber que já não estavas a sofrer. O amor faz-nos querer prender quem amamos à vida, mas também nos faz desejar paz para quem já sofreu demasiado.

Na verdade, não estava preparada para te deixar ir. Nunca estaria. Como é que alguém se prepara para perder um irmão? Como é que se aceita que uma pessoa tão importante desapareça assim da nossa vida? A verdade é que eu nunca aceitei verdadeiramente. Durante anos, todos os dias dizia a mim própria que tinhas ido viajar. Depois aprendi a sobreviver à tua ausência.

A saudade cresceu comigo, tornou-se parte da minha história, da minha identidade, da pessoa que sou. E o amor, esse tornou-se infinito. Um amor que a morte não conseguiu destruir, nem o tempo apagar.

Há pessoas que morrem e há pessoas que permanecem. Tu permaneces em mim todos os dias. Mesmo não estando aqui fisicamente, nunca deixaste de caminhar ao meu lado. És presença constante na minha vida. Estás nos meus pensamentos diários, nas memórias que revisito tantas vezes, nas conversas silenciosas que continuo a ter contigo. Há dias em que sinto a tua falta de uma forma tão profunda que até dói. E há outros em que sorrio ao lembrar-me de ti, do meu puto tinoni, do menino que dizia que quando crescer me daria as suas camisolas para compensar as que herdava de mim, do meu jogador de futebol que conseguiu romper uns ténis num único jogo, das tardes em que nos sentávamos debaixo da tangerineira a lanchar aquilo que colhíamos da árvore, dos nossos cães. Tanta coisa que partilhamos…  

Foi uma bênção ter-te na minha vida. Ainda que tenha sido por menos de 2 décadas, sou infinitamente mais rica por ter tido um irmão como tu. Estás no meu coração de uma forma tão profunda que, às vezes, sinto que caminhamos juntos, mesmo separados por um mundo inteiro. Porque há laços que nem o tempo, nem a morte, nem a ausência conseguem desfazer. Tu és meu irmão ontem, hoje e sempre.

Hoje neste dia especial, vou celebrar-te à minha maneira, lembro-te com amor, e como tantas vezes, falo contigo em silêncio. Continuas a ser uma das pessoas mais importantes do meu coração. Amo-te infinitamente meu querido irmão, e amar-te-ei enquanto existir.

domingo, 3 de maio de 2026

Dia das Mães


Perdi a minha mãe demasiado cedo. Tinha apenas 16 anos quando o cancro ma roubou, depois de assistir a 7 longos anos de sofrimento. Tudo acabou, sem pedir licença, sem dar tempo para me preparar, como se o mundo tivesse decidido que eu tinha de crescer à força, de um dia para o outro. Há dores que não se explicam, apenas se carregam, silenciosas, persistentes, entranhadas nos dias e nas noites. A ausência dela não foi apenas um vazio, foi uma ferida aberta no tempo, um espaço onde ficaram palavras por dizer, abraços por dar, conselhos por ouvir.

Durante muito tempo, senti-me incompleta. Como se me faltasse uma parte essencial para entender a vida, para saber como ser, como sentir, como cuidar. Porque uma mãe não é só presença, é orientação, é porto seguro, é aquele amor que nos ensina o significado de tudo o resto. E nada nem ninguém a pode substituir, 

E depois, a vida, com a sua forma misteriosa de continuar, deu-me a oportunidade de ser mãe. Não sem muita luta para o conseguir. Não sem passar por processos extremamente dolorosos. Mas voltaria a repeti-los sem hesitar. Consegui ter a minha menina, a minha razão de viver.

Hoje, olho para a minha filha e vejo nela tudo aquilo que me faltou e, ao mesmo tempo, tudo aquilo que renasceu dentro de mim. Ser mãe é um amor que não cabe no peito, que nos transforma de dentro para fora, que nos torna mais fortes e mais frágeis ao mesmo tempo. É viver com o coração fora do corpo, é sentir alegria nas pequenas coisas e medo nos silêncios mais longos.

A maternidade trouxe-me um sentido que eu não sabia que procurava. Ensinou-me a amar num crescendo, cada dia mais que o anterior, a proteger, a cuidar, a estar presente, como tantas vezes desejei que a minha mãe ainda estivesse para mim. Em cada gesto meu, há um eco dela. Em cada abraço que dou à minha filha, há um abraço que ficou por dar à menina que fui.

Ser mãe foi também uma forma de cura. Não apagou a dor da perda, mas transformou-a. Deu-lhe um novo significado. Fez com que o amor que não pude continuar a receber, agora possa ser dado, inteiro, profundo, incondicional.

A minha filha é tudo para mim. É luz onde houve sombra, é continuidade onde houve ruptura. É a prova de que, mesmo depois da maior perda, a vida encontra forma de florescer outra vez. E ela é sem dúvida uma versão melhorada e mim. O meu maior orgulho.

Ser mãe é a maior dávida que recebi da vida. Hoje celebro o Dia da Mãe como o calendário indica, mas acreditem, louvo esse papel todos os dias, por mim, e por quem me deu vida. 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Que seja feita justiça

 

Há quase um ano, a minha casa deixou de ser apenas um lugar. Deixou de ser o espaço seguro onde tudo fazia sentido e onde o mundo lá fora ficava, simbolicamente, à porta. Numa ausência que parecia banal, alguém entrou, mexeu nas minhas coisas, invadiu a minha intimidade. E, de repente, aquilo que era meu deixou de o ser por instantes, e isso foi suficiente para mudar muita coisa dentro de mim.

Mas não foi apenas um assalto silencioso. Houve um momento de confronto. Cruzei-me com o ladrão à saída da minha própria casa. Um instante que ainda hoje me atravessa. Houve tensão, houve medo real, palpável. Houve violência naquele encontro, e a imagem dele a apontar-me uma faca ficou gravada em mim de uma forma difícil de explicar. Foi o momento em que tudo deixou de ser apenas material e passou a ser uma ameaça direta à minha integridade, à minha vida.

E depois, o que encontrei lá dentro. Não foi só a ausência de objetos. Foi um cenário de destruição. Um rasto de desrespeito e caos. Coisas remexidas, partidas, desfeitas. Portas arrancadas, como se até os limites físicos da casa tivessem sido violentados. Cada divisão parecia contar uma história de invasão, como se o espaço tivesse sido despido da sua dignidade.

Não foi apenas o que levaram. Foi o que ficou. A sensação de violação, de insegurança, de perda de controlo. Durante muito tempo, qualquer barulho parecia um alerta, qualquer ausência um risco. A casa, que antes acolhia, passou a exigir vigilância. E eu, que antes confiava, passei a desconfiar.

Com o passar dos meses, as marcas não ficaram apenas na memória, passaram também para o corpo. Comecei a ter ataques de pânico inesperados, daqueles que chegam sem aviso e tomam conta de tudo: o coração acelera, a respiração encurta, e uma sensação de perigo iminente instala-se, mesmo quando nada está a acontecer. A ansiedade tornou-se uma presença constante, como um ruído de fundo difícil de silenciar.

Dormir, que antes era um refúgio, deixou de o ser. O sono tornou-se leve, fragmentado, inquieto. Muitas noites são interrompidas por pesadelos que me devolvem, de forma quase cruel, àquele momento, à invasão, ao confronto, ao medo. Acordo sobressaltada, com o corpo tenso, como se tudo estivesse a acontecer outra vez.

Agora, quase um ano depois, quando parecia que tudo começava lentamente a assentar, surge o julgamento. Fui chamada como testemunha. E com essa chamada vieram também memórias que eu tentei organizar, arrumar, talvez até esquecer um pouco. É como se abrisse uma porta que eu tinha fechado com esforço.

Sinto-me inquieta, ansiosa, como se tivesse de reviver algo que ainda não cicatrizou completamente. Não é apenas ir a tribunal. É voltar ao momento, às emoções, ao medo. É olhar, mesmo que indiretamente, para quem esteve na origem de tudo isto.

Ao mesmo tempo, há uma parte de mim que sabe que este passo faz parte de um processo. Que falar, testemunhar, dar voz ao que aconteceu também é uma forma de recuperar algum controlo, de não deixar que o silêncio apague o impacto do que vivi.

Mas isso não torna tudo mais fácil.

Há um equilíbrio difícil entre a necessidade de justiça e o peso emocional de reviver. E é nesse espaço que me encontro agora: entre o passado que insiste em reaparecer e a vontade de seguir em frente, com mais tranquilidade, mais segurança e, sobretudo, mais paz. Desejo profundamente que seja feita justiça.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Parabéns meu amor!

 

Hoje, no dia do teu aniversário, escrevo sobre ti.

Curioso como a vida, às vezes, começa pelos caminhos mais improváveis. Quando nos conhecemos, não houve faísca imediata, nem simpatia à primeira vista. Éramos quase opostos, tu, mais calado, fechado no teu mundo, com uma intensidade silenciosa que eu, na altura, talvez não soubesse ler.

Mas o tempo… o tempo tem uma forma muito própria de revelar as pessoas.

Pelo meio, cada um de nós trazia histórias. Relações que não resultaram, caminhos que deixaram marcas, feridas tatuadas que iriam desaparecer e com as quais tínhamos que aprender a viver. Talvez por isso nos reconhecemos devagar, com respeito, e como quem sabe o peso que o outro carrega.

E, sem darmos conta, aquilo que era apenas presença tornou-se conversa. O que era distância transformou-se em proximidade. E da amizade começou a nascer algo mais, algo feito de pequenas partilhas, de silêncios que já não incomodavam, de um estar que acalmava.

Hoje, olho para nós e vejo isso: uma relação que se foi construindo, feita de altos e baixos que não nos quebraram, mas nos ensinaram. Vejo o teu apoio nos dias em que me perco, e a tua forma quieta de ficar quando tudo em mim é tempestade. E vejo também as nossas diferenças, a tua teimosia assumida (que tantas vezes afirmas resultar de seres de carneiro com ascendente em carneiro), a esbarrar na minha forma de sentir.

Nem sempre concordamos. Nem sempre é fácil. Há dias em que as palavras falham, em que os silêncios pesam, em que ceder custa. Mas há também algo maior: a vontade de ficar, de compreender, de ajustar caminhos sem perder quem somos. Porque quando o sentimento é verdadeiro, há um lugar dentro de nós que sabe que vale a pena tentar com paciência, escuta e cuidado.

E é aí que nos identifico, na forma como, mesmo no desencontro, acabamos por escolher o encontro. Aceitamo-nos nas partes bonitas e nas que ainda estão a aprender a ser, com respeito por quem somos juntos e como pessoas com características próprias.

Sinto cumplicidade, companheirismo e esse “qualquer coisa” que não precisa de nome, porque apenas se sente. Está nos pequenos gestos, na forma como sabemos que estamos ali um para o outro nos bons e nos maus momentos.

No meio de tudo o que a vida já nos tirou e deu, tornaste-te o meu porto seguro, e espero ser também o teu. Hoje dei-te um âncora porque simboliza essa segurança, e a confiança de que estaremos sempre lá um para o outro.

Obrigada por seres quem és, e por me deixares ser quem sou ao teu lado.

Parabéns meu amor!