quinta-feira, 9 de abril de 2026

Parabéns meu amor!

 

Hoje, no dia do teu aniversário, escrevo sobre ti.

Curioso como a vida, às vezes, começa pelos caminhos mais improváveis. Quando nos conhecemos, não houve faísca imediata, nem simpatia à primeira vista. Éramos quase opostos, tu, mais calado, fechado no teu mundo, com uma intensidade silenciosa que eu, na altura, talvez não soubesse ler.

Mas o tempo… o tempo tem uma forma muito própria de revelar as pessoas.

Pelo meio, cada um de nós trazia histórias. Relações que não resultaram, caminhos que deixaram marcas, feridas tatuadas que iriam desaparecer e com as quais tínhamos que aprender a viver. Talvez por isso nos reconhecemos devagar, com respeito, e como quem sabe o peso que o outro carrega.

E, sem darmos conta, aquilo que era apenas presença tornou-se conversa. O que era distância transformou-se em proximidade. E da amizade começou a nascer algo mais, algo feito de pequenas partilhas, de silêncios que já não incomodavam, de um estar que acalmava.

Hoje, olho para nós e vejo isso: uma relação que se foi construindo, feita de altos e baixos que não nos quebraram, mas nos ensinaram. Vejo o teu apoio nos dias em que me perco, e a tua forma quieta de ficar quando tudo em mim é tempestade. E vejo também as nossas diferenças, a tua teimosia assumida (que tantas vezes afirmas resultar de seres de carneiro com ascendente em carneiro), a esbarrar na minha forma de sentir.

Nem sempre concordamos. Nem sempre é fácil. Há dias em que as palavras falham, em que os silêncios pesam, em que ceder custa. Mas há também algo maior: a vontade de ficar, de compreender, de ajustar caminhos sem perder quem somos. Porque quando o sentimento é verdadeiro, há um lugar dentro de nós que sabe que vale a pena tentar com paciência, escuta e cuidado.

E é aí que nos identifico, na forma como, mesmo no desencontro, acabamos por escolher o encontro. Aceitamo-nos nas partes bonitas e nas que ainda estão a aprender a ser, com respeito por quem somos juntos e como pessoas com características próprias.

Sinto cumplicidade, companheirismo e esse “qualquer coisa” que não precisa de nome, porque apenas se sente. Está nos pequenos gestos, na forma como sabemos que estamos ali um para o outro nos bons e nos maus momentos.

No meio de tudo o que a vida já nos tirou e deu, tornaste-te o meu porto seguro, e espero ser também o teu. Hoje dei-te um âncora porque simboliza essa segurança, e a confiança de que estaremos sempre lá um para o outro.

Obrigada por seres quem és, e por me deixares ser quem sou ao teu lado.

Parabéns meu amor!


quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Páscoa que há em nós

 

Fui educada dentro de uma fé muito concreta, com contornos bem definidos, rituais que se repetiam ano após ano e palavras que aprendi antes mesmo de as compreender. Cresci no seio do catolicismo, entre missas de domingo, orações decoradas e uma ideia de Deus que, na altura, me parecia tão absoluta quanto distante. A Páscoa, em particular, era um dos momentos mais marcantes, carregada de simbolismo, silêncio e respeito.

Na aldeia onde nasci, e onde os meus avós viveram, toda a Quaresma era vivida intensamente, cheia de rituais sagrados, missas e procissões, mas simultaneamente com um certo recolhimento que convidava à introspeção.  Lembro-me da solenidade desses dias, do peso da Sexta-feira Santa, onde se vivia o luto por Cristo e não se podia comer carne porque isso representava o sangue do Senhor. E depois, o domingo, como um renascer, as cores alegres, as colchas nas janelas e as pétalas de flores por onde a procissão passava a celebrar a ressurreição de Cristo.

Houve, no entanto, uma fase da minha vida em que tudo isso se partiu. A perda de familiares próximos trouxe uma dor difícil de traduzir, um vazio que nenhuma palavra conseguia alcançar. E, nesse lugar de ausência, veio a revolta. Zanguei-me com Deus. Zanguei-me com a Igreja. Senti-me traída por uma fé que, até então, me tinha sido apresentada como abrigo. Afastei-me. Questionei. Duvidar tornou-se quase uma forma de sobrevivência.

Mas, curiosamente, foi nesse mesmo vazio que nasceu uma outra necessidade, mais silenciosa, mais íntima. A necessidade de encontrar sentido, de me ligar a algo maior, mesmo que já não soubesse dar-lhe um nome. Quando tudo parece desmoronar, há uma parte de nós que continua a ter de sobreviver, ainda que com dor. E foi aí que comecei a reconstruir a minha relação com o sagrado, fora das estruturas que antes conhecia.

Com o tempo, fui-me afastando das formas rígidas e aproximando-me mais da essência. Sou uma pessoa de fé.  Acredito que somos muito mais do que a vida medíocre que por vezes vivemos. Acredito que há algo mais depois do fim. Não deixei de procurar o sagrado, mas deixei de o procurar num único lugar. Sinto-me mais espiritual do que religiosa.

Não rejeito aquilo que me foi dado, pelo contrário, reconheço-lhe valor, raiz, identidade. E  tenho muita, muita saudade das pessoas que partilharam esses momentos comigo e já partiram. 

Mas aprendi que a fé pode ser mais ampla, mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais profunda. Comecei a olhar para outras religiões com curiosidade e respeito. Percebi que, por trás de nomes diferentes, rituais distintos e histórias próprias, existe muitas vezes a mesma busca: sentido, ligação, transcendência, amor.

Para mim, a Páscoa, deixou de ser apenas um acontecimento religioso. É um tempo de renovação, de deixar morrer o que já não serve, de abrir espaço ao que quer nascer. É um convite à introspeção, mas também à esperança.

Talvez acenda umas velas, vou certamente pensar em quem já partiu, e talvez me permita estar em silêncio comigo mesma, e, nesse silêncio, talvez encontre algo que reconheço como sagrado, porque em cada um de nós há uma energia divina. Só precisamos de a encontrar.

Páscoa Feliz!


sexta-feira, 27 de março de 2026

Sobre a eutanásia e o direito de morrer


Após ser vítima de uma agressão sexual múltipla quando tinha 22 anos, Noelia, tentou acabar coma própria vida, atirando-se de um quinto andar, mas nem tudo correu como queria, ficou viva e paraplégica. Já não lhe bastava os anos e anos numa instituição, abandonada pela família, as marcas destes trágicos acontecimentos aprofundaram ainda mais a depressão em que mergulhou. E quis que o seu sofrimento acabasse, lutou durante anos pelo direito de pôr termo à vida. Ontem, com 25 anos, foi eutanasiada.

A notícia correu mundo, e ninguém ficou indiferente.

A eutanásia é um dos temas mais delicados e profundamente humanos que podemos abordar, porque nos coloca diante de uma realidade inevitável: a morte. E mais do que isso, obriga-nos a refletir sobre a forma como queremos partir, ou permitir que alguém parta, quando a vida se torna sinónimo de dor, perda de dignidade ou ausência de sentido.

Há quem defenda a eutanásia como um ato de compaixão. Nessa perspectiva, permitir que alguém escolha terminar a sua vida, em situações de sofrimento extremo e irreversível, é respeitar a sua autonomia e aliviar uma dor que já não encontra alívio. Para muitos, trata-se de devolver à pessoa um controlo que a doença lhe retirou, oferecendo-lhe uma despedida consciente, serena e, dentro do possível, digna.

Por outro lado, existem argumentos igualmente fortes contra. Há quem veja na eutanásia um limite perigoso, onde a vida, mesmo fragilizada, deixa de ser protegida de forma absoluta. Onde se traça a linha entre aliviar o sofrimento e desistir da vida?

No centro deste debate está algo que nenhuma lei ou decisão consegue apagar: a morte é uma perda irreversível. Quando alguém parte, não há retorno, não há segunda oportunidade, não há forma de refazer palavras não ditas ou gestos adiados. Fica o silêncio, a ausência, e uma presença que passa a existir apenas na memória de quem fica.

O caso da Noelia teve ainda a particularidade de trazer para o debate a temática da doença mental-  a depressão, que segundo a Organização Mundial da Saúde, é o problema de saúde mais prevalente na União Europeia, afetando cerca de 50 milhões de pessoas.

Talvez uma das maiores limitações desta doença, seja a sensação de estar preso dentro de si próprio, como se existisse uma distância entre aquilo que a pessoa é por dentro e aquilo que consegue viver ou mostrar ao mundo. Pode ser uma verdadeira prisão silenciosa, onde tudo se vê, tudo se percebe, mas nada toca verdadeiramente, como estar preso dentro de um corpo que não responde.

E perante isto, a vida pode deixar de fazer sentido, porque por dentro já se foi morrendo. Existe-se mas não se vive.

No fim, talvez o essencial seja mantermos a capacidade de olhar para cada história com humanidade. De escutar sem julgar. De cuidar, mesmo quando não podemos curar. E de reconhecer que, perante a morte, todas as certezas se tornam mais pequenas, e todas as emoções, mais verdadeiras.

Que encontres paz Noelia, e que, como tanto querias, consigas finalmente descansar.

O que é importante na vida?

 


Há coisas na vida que só se tornam importantes quando tudo o resto perde o peso. Não são as conquistas que exibimos nem os títulos que acumulamos, mas os momentos silenciosos que nos atravessam sem pedir licença. Aqueles instantes em que sentimos, de forma quase inexplicável, que estamos exatamente onde devíamos estar.

O essencial raramente faz barulho. Está no abraço que chega no momento certo, na palavra dita com verdade, no olhar que compreende sem necessidade de explicações. Está na coragem de continuar, mesmo quando ninguém vê, e na capacidade de parar, mesmo quando o mundo exige pressa.

Passamos grande parte da vida a correr atrás de “importâncias” que nos ensinaram: sucesso, reconhecimento, estabilidade. E, ainda assim, há um vazio que nenhuma dessas coisas consegue preencher por completo. Porque o que verdadeiramente importa não se mede, sente-se.

Importa saber quem somos quando ninguém está a ver. Importa a forma como tratamos os outros, especialmente quando não temos nada a ganhar com isso. Importa a paz com que adormecemos e a leveza com que acordamos. Importa o que fica depois das perdas, depois das mudanças, depois de tudo o que nos obrigou a recomeçar.

A vida, no fundo, não é feita apenas de grandes momentos, mas de pequenas escolhas repetidas todos os dias. Escolher amar, mesmo com medo. Escolher perdoar, mesmo com dor. Escolher ficar, partir, recomeçar, tantas vezes quantas forem necessárias.

Talvez o mais importante seja perceber que tudo é passageiro. E, justamente por isso, tudo é valioso. Cada encontro, cada despedida, cada oportunidade de sentir.

E há também uma beleza discreta no tempo que passa. As marcas que ele deixa contam histórias, e entre elas, as mais bonitas são aquelas desenhadas pelos sorrisos. As rugas que nascem junto aos olhos não são sinais de desgaste, mas de vida vivida, de momentos partilhados, de alegria repetida vezes sem conta. São a prova silenciosa de que, apesar de tudo, houve espaço para sorrir, e isso, por si só, já diz tanto sobre o que realmente importa.

No fim, quando olharmos para trás, dificilmente serão as coisas materiais ou os feitos grandiosos que ocuparão espaço na memória. Serão as pessoas, os afetos, os gestos simples. Será aquilo que nos tocou profundamente, e aquilo que, de alguma forma, também tocámos no outro.

 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Bem-vinda Primavera

 


A primavera chega hoje, devagar, tímida, quase em segredo num dia meio chuvoso, como se não quisesse interromper o silêncio deixado pelos dias frios e sombrios. Promete trazer consigo uma luz diferente, mais firme, como se soubesse exatamente onde tocar para despertar o que ficou adormecido.

Depois de um inverno penoso, recheado de catástrofes, que ultrapassou todos os recordes de chuvas e ventos a que jamais tínhamos assistido, esta estação surge como um convite. Um convite a soltar o que já não faz sentido, a deixar para trás as sombras que insistiram a assombrar-nos, a abrir espaço para o que pode, agora, florescer.

Há algo de profundamente simbólico neste recomeço. As árvores não resistem à mudança, entregam-se a ela. Os campos não questionam, simplesmente florescem e renovam-se. E talvez haja nisso uma lição silenciosa: a de que também nós podemos recomeça, mesmo sem termos todas as respostas, mesmo com marcas ainda recentes.

A primavera ensina-nos a caminhar para além do inverno, dos tempos frios e sombrios. Mostra-nos que tudo muda, nada é para sempre. Que a vida encontra sempre uma forma de se reinventar.

Que esta nova etapa seja feita de luz. De pequenos gestos que aquecem o coração. De esperança que se instala sem pedir licença. E que, tal como a natureza, possamos confiar que, dentro de nós, também existe um tempo para voltar a florescer.


quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

 

Hoje, Dia do pai, vou escrever sobre o meu.

O meu pai foi um homem que cresceu depressa demais. Que foi obrigado a trocar a leveza da adolescência pelo peso das responsabilidades ainda antes de saber bem quem era. Aos 14 anos, a vida chamou-o sem aviso, e ele respondeu, como pôde, como soube, e principalmente, como teve de ser.

Talvez não tenha tido colo suficiente. Talvez ninguém lhe tenha ensinado a nomear o que sentia, a parar, a ouvir-se. Aprendeu, isso sim, a resistir. A seguir em frente. A fazer o que era preciso, mesmo quando lhe faltava tanto por dentro.

E depois casou-se e tornou-se pai, sem nunca ter tido verdadeiramente a presença de um que lhe demonstrasse afetos nas coisas simples do dia-a-dia. Como se aprende a dar aquilo que nunca se recebeu? Como se constrói presença quando se cresceu na ausência?

Não foi um pai presente. Houve silêncios, distâncias, momentos que ficaram por viver. Houve um espaço que, durante muito tempo, soube a vazio.

Mas o tempo, com a sua forma lenta e quase silenciosa de revelar, trouxe-me também outras leituras. Hoje consigo vê-lo com outros olhos. Consigo perceber que, mesmo perdido nas suas limitações, existia uma tentativa, imperfeita, falhada às vezes, mas real.

As emoções, nele, sempre tiveram um caminho difícil, como se estivessem guardadas num lugar onde nem sempre é fácil chegar. E ainda assim, hoje consigo reconhecer que o amor esteve lá, mesmo quando não soube como mostrá-lo.

Há histórias que não são feitas de gestos evidentes, mas de ausências que também dizem muito. E, às vezes, compreender alguém é aceitar que ele só conseguiu dar aquilo que sabia ou aquilo que conseguiu aprender pelo caminho.

Hoje, reconheço o homem que ele é, com as suas faltas, com as suas ausências, mas também de quem fez o melhor que sabia.  E aprendi que nem tudo precisa ser dito, que as palavras por vezes não chegam a quem precisava de as dizer, mas que o amor nunca deixou de estar lá.

Amo-te muito pai.


terça-feira, 17 de março de 2026

Uma vida num pote de cinzas

 

Há muito tempo que não público nada aqui. Mas hoje sinto-me como uma panela de pressão prestes a explodir. E a escrita é terapêutica.

Hoje, mais uma vez, a vida e a morte encontraram-me. E há uma dor silenciosa que só quem perde alguém conhece. Não é apenas a ausência física, é o eco de tudo o que ficou por dizer, de todos os gestos que já não terão resposta, de coisas que, de repente, deixam de fazer sentido.

Perder alguém é como ver o mundo encolher. Os lugares continuam lá, as ruas mantêm o mesmo nome, o sol nasce como sempre… mas tudo parece mais vazio, mais frio, mais distante. Há um antes e um depois, e o depois nunca mais é inteiro.

E depois há o momento mais difícil de compreender - quando uma vida inteira, cheia de histórias,  memórias e amor, se reduz a pó ou a um pequeno pote de cinzas. Como pode caber tanto em tão pouco? Como aceitar que mãos que abraçaram, olhos que sorriram e vozes que nos chamaram pelo nome se transformem em algo tão silencioso, tão imóvel?

É nesse instante que a realidade pesa, que constatamos que as nossas perdas não param de aumentar de forma insuportável. Não é só a perda de uma pessoa. É a sensação de que o mundo está a ficar mais pobre. Menos rico em histórias, em carinho, em presença. Como se as luzes se estivessem a apagar para sempre. 

E, com o tempo percebemos que não são perdas isoladas. De repente, damos contam de que uma geração inteira que se despediu. Os avós partiram, levando consigo raízes, histórias antigas, memórias de um tempo que já não volta. E agora, quase sem darmos conta, começamos a assistir à partida da geração seguinte — os tios, aqueles que ainda eram referência, ainda eram ligação, ainda eram ponte entre o passado e o presente.

É então que algo dentro de nós se inquieta. Já não é apenas sobre saudade. É sobre consciência. Não da morte em si, mas da sensação de que o nosso mundo, aquele que conhecíamos desde sempre, está lentamente a desaparecer. Como um livro cujas páginas vão sendo arrancadas, uma a uma.

E, ainda assim, há algo que resiste. Porque quem parte não leva tudo consigo. Ficam as marcas invisíveis, na forma como falamos, nos gestos que repetimos sem dar conta, nas memórias que surgem sem aviso e nos fazem sorrir no meio da dor.

Talvez seja isso que nos mantém de pé: a certeza de que, embora reduzidos a pó ou cinzas, aqueles que amamos continuam a existir em nós. 

E seguimos, com o coração mais pesado, num mundo que, inevitavelmente,  vai ficando mais vazio, e onde o tempo nos lembra, cada vez mais, que a vida é uma passagem.