quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

 

Hoje, Dia do Pai, vou escrever sobre o meu.

O meu pai foi um homem que cresceu depressa demais. Que foi obrigado a trocar a leveza da adolescência pelo peso das responsabilidades ainda antes de saber bem quem era. Aos 14 anos, a vida chamou-o sem aviso, e ele respondeu, como pôde, como soube, e principalmente, como teve de ser.

Talvez não tenha tido colo suficiente. Talvez ninguém lhe tenha ensinado a nomear o que sentia, a parar, a ouvir-se. Aprendeu, isso sim, a resistir. A seguir em frente. A fazer o que era preciso, mesmo quando lhe faltava tanto por dentro.

E depois casou-se e tornou-se pai, sem nunca ter tido verdadeiramente a presença de um que lhe demonstrasse afetos nas coisas simples do dia-a-dia. Como se aprende a dar aquilo que nunca se recebeu? Como se constrói presença quando se cresceu na ausência?

Não foi um pai presente. Houve silêncios, distâncias, momentos que ficaram por viver. Houve um espaço que, durante muito tempo, soube a vazio.

Mas o tempo, com a sua forma lenta e quase silenciosa de revelar, trouxe-me também outras leituras. Hoje consigo vê-lo com outros olhos. Consigo perceber que, mesmo perdido nas suas limitações, existia uma tentativa, imperfeita, falhada às vezes, mas real.

As emoções, nele, sempre tiveram um caminho difícil, como se estivessem guardadas num lugar onde nem sempre é fácil chegar. E ainda assim, hoje consigo reconhecer que o amor esteve lá, mesmo quando não soube como mostrá-lo.

Há histórias que não são feitas de gestos evidentes, mas de ausências que também dizem muito. E, às vezes, compreender alguém é aceitar que ele só conseguiu dar aquilo que sabia ou aquilo que conseguiu aprender pelo caminho.

Hoje, reconheço o homem que ele é, com as suas faltas, com as suas ausências, mas também de quem fez o melhor que sabia.  E aprendi que nem tudo precisa ser dito, que as palavras por vezes não chegam a quem precisava de as dizer, mas que o amor nunca deixou de estar lá.

Amo-te muito pai.


terça-feira, 17 de março de 2026

Uma vida num pote de cinzas

 

Há muito tempo que não público nada aqui. Mas hoje sinto-me como uma panela de pressão prestes a explodir. E a escrita é terapêutica.

Hoje, mais uma vez, a vida e a morte encontraram-me. E há uma dor silenciosa que só quem perde alguém conhece. Não é apenas a ausência física, é o eco de tudo o que ficou por dizer, de todos os gestos que já não terão resposta, de coisas que, de repente, deixam de fazer sentido.

Perder alguém é como ver o mundo encolher. Os lugares continuam lá, as ruas mantêm o mesmo nome, o sol nasce como sempre… mas tudo parece mais vazio, mais frio, mais distante. Há um antes e um depois, e o depois nunca mais é inteiro.

E depois há o momento mais difícil de compreender - quando uma vida inteira, cheia de histórias,  memórias e amor, se reduz a pó ou a um pequeno pote de cinzas. Como pode caber tanto em tão pouco? Como aceitar que mãos que abraçaram, olhos que sorriram e vozes que nos chamaram pelo nome se transformem em algo tão silencioso, tão imóvel?

É nesse instante que a realidade pesa, que constatamos que as nossas perdas não param de aumentar de forma insuportável. Não é só a perda de uma pessoa. É a sensação de que o mundo está a ficar mais pobre. Menos rico em histórias, em carinho, em presença. Como se as luzes se estivessem a apagar para sempre. 

E, com o tempo percebemos que não são perdas isoladas. De repente, damos contam de que uma geração inteira que se despediu. Os avós partiram, levando consigo raízes, histórias antigas, memórias de um tempo que já não volta. E agora, quase sem darmos conta, começamos a assistir à partida da geração seguinte — os tios, aqueles que ainda eram referência, ainda eram ligação, ainda eram ponte entre o passado e o presente.

É então que algo dentro de nós se inquieta. Já não é apenas sobre saudade. É sobre consciência. Não da morte em si, mas da sensação de que o nosso mundo, aquele que conhecíamos desde sempre, está lentamente a desaparecer. Como um livro cujas páginas vão sendo arrancadas, uma a uma.

E, ainda assim, há algo que resiste. Porque quem parte não leva tudo consigo. Ficam as marcas invisíveis, na forma como falamos, nos gestos que repetimos sem dar conta, nas memórias que surgem sem aviso e nos fazem sorrir no meio da dor.

Talvez seja isso que nos mantém de pé: a certeza de que, embora reduzidos a pó ou cinzas, aqueles que amamos continuam a existir em nós. 

E seguimos, com o coração mais pesado, num mundo que, inevitavelmente,  vai ficando mais vazio, e onde o tempo nos lembra, cada vez mais, que a vida é uma passagem.