Há muito tempo que não público nada aqui. Mas hoje sinto-me como uma panela de pressão prestes a explodir. E a escrita é terapêutica.
Hoje, mais uma vez, a vida e a morte encontraram-me. E há uma dor silenciosa que só quem perde alguém conhece. Não é apenas a ausência física, é o eco de tudo o que ficou por dizer, de todos os gestos que já não terão resposta, de coisas que, de repente, deixam de fazer sentido.
Perder alguém é como ver o mundo encolher. Os lugares continuam lá, as ruas mantêm o mesmo nome, o sol nasce como sempre… mas tudo parece mais vazio, mais frio, mais distante. Há um antes e um depois, e o depois nunca mais é inteiro.
E depois há o momento mais difícil de compreender - quando uma vida inteira, cheia de histórias, memórias e amor, se reduz a pó ou a um pequeno pote de cinzas. Como pode caber tanto em tão pouco? Como aceitar que mãos que abraçaram, olhos que sorriram e vozes que nos chamaram pelo nome se transformem em algo tão silencioso, tão imóvel?
É nesse instante que a realidade pesa, que constatamos que as nossas perdas não param de aumentar de forma insuportável. Não é só a perda de uma pessoa. É a sensação de que o mundo está a ficar mais pobre. Menos rico em histórias, em carinho, em presença. Como se as luzes se estivessem a apagar para sempre.
E, com o tempo percebemos que não são perdas isoladas. De repente, damos contam de que uma geração inteira que se despediu. Os avós partiram, levando consigo raízes, histórias antigas, memórias de um tempo que já não volta. E agora, quase sem darmos conta, começamos a assistir à partida da geração seguinte — os tios, aqueles que ainda eram referência, ainda eram ligação, ainda eram ponte entre o passado e o presente.
É então que algo dentro de nós se inquieta. Já não é apenas sobre saudade. É sobre consciência. Não da morte em si, mas da sensação de que o nosso mundo, aquele que conhecíamos desde sempre, está lentamente a desaparecer. Como um livro cujas páginas vão sendo arrancadas, uma a uma.
E, ainda assim, há algo que resiste. Porque quem parte não leva tudo consigo. Ficam as marcas invisíveis, na forma como falamos, nos gestos que repetimos sem dar conta, nas memórias que surgem sem aviso e nos fazem sorrir no meio da dor.
Talvez seja isso que nos mantém de pé: a certeza de que, embora reduzidos a pó ou cinzas, aqueles que amamos continuam a existir em nós.
E seguimos, com o coração mais pesado, num mundo que, inevitavelmente, vai ficando mais vazio, e onde o tempo nos lembra, cada vez mais, que a vida é uma passagem.

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