Hoje, Dia do Pai, vou escrever sobre o meu.
O meu pai foi um homem
que cresceu depressa demais. Que foi obrigado a trocar a leveza da adolescência
pelo peso das responsabilidades ainda antes de saber bem quem era. Aos 14 anos,
a vida chamou-o sem aviso, e ele respondeu, como pôde, como soube, e
principalmente, como teve de ser.
Talvez não tenha tido
colo suficiente. Talvez ninguém lhe tenha ensinado a nomear o que sentia, a
parar, a ouvir-se. Aprendeu, isso sim, a resistir. A seguir em frente. A fazer
o que era preciso, mesmo quando lhe faltava tanto por dentro.
E depois casou-se e tornou-se
pai, sem nunca ter tido verdadeiramente a presença de um que lhe demonstrasse afetos
nas coisas simples do dia-a-dia. Como se aprende a dar aquilo que
nunca se recebeu? Como se constrói presença quando se cresceu na ausência?
Não foi um pai
presente. Houve silêncios, distâncias, momentos que ficaram por viver. Houve um
espaço que, durante muito tempo, soube a vazio.
Mas o tempo, com a
sua forma lenta e quase silenciosa de revelar, trouxe-me também outras
leituras. Hoje consigo vê-lo com outros olhos. Consigo perceber que, mesmo
perdido nas suas limitações, existia uma tentativa, imperfeita, falhada às
vezes, mas real.
As emoções, nele,
sempre tiveram um caminho difícil, como se estivessem guardadas num lugar onde
nem sempre é fácil chegar. E ainda assim, hoje consigo reconhecer que o amor
esteve lá, mesmo quando não soube como mostrá-lo.
Há histórias que
não são feitas de gestos evidentes, mas de ausências que também dizem muito. E,
às vezes, compreender alguém é aceitar que ele só conseguiu dar aquilo que
sabia ou aquilo que conseguiu aprender pelo caminho.
Hoje, reconheço o
homem que ele é, com as suas faltas, com as suas ausências, mas também de quem
fez o melhor que sabia. E aprendi que
nem tudo precisa ser dito, que as palavras por vezes não chegam a quem precisava
de as dizer, mas que o amor nunca deixou de estar lá.
Amo-te muito pai.

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