sexta-feira, 20 de março de 2026

Bem-vinda Primavera

 


A primavera chega hoje, devagar, tímida, quase em segredo num dia meio chuvoso, como se não quisesse interromper o silêncio deixado pelos dias frios e sombrios. Promete trazer consigo uma luz diferente, mais firme, como se soubesse exatamente onde tocar para despertar o que ficou adormecido.

Depois de um inverno penoso, recheado de catástrofes, que ultrapassou todos os recordes de chuvas e ventos a que jamais tínhamos assistido, esta estação surge como um convite. Um convite a soltar o que já não faz sentido, a deixar para trás as sombras que insistiram a assombrar-nos, a abrir espaço para o que pode, agora, florescer.

Há algo de profundamente simbólico neste recomeço. As árvores não resistem à mudança, entregam-se a ela. Os campos não questionam, simplesmente florescem e renovam-se. E talvez haja nisso uma lição silenciosa: a de que também nós podemos recomeça, mesmo sem termos todas as respostas, mesmo com marcas ainda recentes.

A primavera ensina-nos a caminhar para além do inverno, dos tempos frios e sombrios. Mostra-nos que tudo muda, nada é para sempre. Que a vida encontra sempre uma forma de se reinventar.

Que esta nova etapa seja feita de luz. De pequenos gestos que aquecem o coração. De esperança que se instala sem pedir licença. E que, tal como a natureza, possamos confiar que, dentro de nós, também existe um tempo para voltar a florescer.


quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

 

Hoje, Dia do Pai, vou escrever sobre o meu.

O meu pai foi um homem que cresceu depressa demais. Que foi obrigado a trocar a leveza da adolescência pelo peso das responsabilidades ainda antes de saber bem quem era. Aos 14 anos, a vida chamou-o sem aviso, e ele respondeu, como pôde, como soube, e principalmente, como teve de ser.

Talvez não tenha tido colo suficiente. Talvez ninguém lhe tenha ensinado a nomear o que sentia, a parar, a ouvir-se. Aprendeu, isso sim, a resistir. A seguir em frente. A fazer o que era preciso, mesmo quando lhe faltava tanto por dentro.

E depois casou-se e tornou-se pai, sem nunca ter tido verdadeiramente a presença de um que lhe demonstrasse afetos nas coisas simples do dia-a-dia. Como se aprende a dar aquilo que nunca se recebeu? Como se constrói presença quando se cresceu na ausência?

Não foi um pai presente. Houve silêncios, distâncias, momentos que ficaram por viver. Houve um espaço que, durante muito tempo, soube a vazio.

Mas o tempo, com a sua forma lenta e quase silenciosa de revelar, trouxe-me também outras leituras. Hoje consigo vê-lo com outros olhos. Consigo perceber que, mesmo perdido nas suas limitações, existia uma tentativa, imperfeita, falhada às vezes, mas real.

As emoções, nele, sempre tiveram um caminho difícil, como se estivessem guardadas num lugar onde nem sempre é fácil chegar. E ainda assim, hoje consigo reconhecer que o amor esteve lá, mesmo quando não soube como mostrá-lo.

Há histórias que não são feitas de gestos evidentes, mas de ausências que também dizem muito. E, às vezes, compreender alguém é aceitar que ele só conseguiu dar aquilo que sabia ou aquilo que conseguiu aprender pelo caminho.

Hoje, reconheço o homem que ele é, com as suas faltas, com as suas ausências, mas também de quem fez o melhor que sabia.  E aprendi que nem tudo precisa ser dito, que as palavras por vezes não chegam a quem precisava de as dizer, mas que o amor nunca deixou de estar lá.

Amo-te muito pai.


terça-feira, 17 de março de 2026

Uma vida num pote de cinzas

 

Há muito tempo que não público nada aqui. Mas hoje sinto-me como uma panela de pressão prestes a explodir. E a escrita é terapêutica.

Hoje, mais uma vez, a vida e a morte encontraram-me. E há uma dor silenciosa que só quem perde alguém conhece. Não é apenas a ausência física, é o eco de tudo o que ficou por dizer, de todos os gestos que já não terão resposta, de coisas que, de repente, deixam de fazer sentido.

Perder alguém é como ver o mundo encolher. Os lugares continuam lá, as ruas mantêm o mesmo nome, o sol nasce como sempre… mas tudo parece mais vazio, mais frio, mais distante. Há um antes e um depois, e o depois nunca mais é inteiro.

E depois há o momento mais difícil de compreender - quando uma vida inteira, cheia de histórias,  memórias e amor, se reduz a pó ou a um pequeno pote de cinzas. Como pode caber tanto em tão pouco? Como aceitar que mãos que abraçaram, olhos que sorriram e vozes que nos chamaram pelo nome se transformem em algo tão silencioso, tão imóvel?

É nesse instante que a realidade pesa, que constatamos que as nossas perdas não param de aumentar de forma insuportável. Não é só a perda de uma pessoa. É a sensação de que o mundo está a ficar mais pobre. Menos rico em histórias, em carinho, em presença. Como se as luzes se estivessem a apagar para sempre. 

E, com o tempo percebemos que não são perdas isoladas. De repente, damos contam de que uma geração inteira que se despediu. Os avós partiram, levando consigo raízes, histórias antigas, memórias de um tempo que já não volta. E agora, quase sem darmos conta, começamos a assistir à partida da geração seguinte — os tios, aqueles que ainda eram referência, ainda eram ligação, ainda eram ponte entre o passado e o presente.

É então que algo dentro de nós se inquieta. Já não é apenas sobre saudade. É sobre consciência. Não da morte em si, mas da sensação de que o nosso mundo, aquele que conhecíamos desde sempre, está lentamente a desaparecer. Como um livro cujas páginas vão sendo arrancadas, uma a uma.

E, ainda assim, há algo que resiste. Porque quem parte não leva tudo consigo. Ficam as marcas invisíveis, na forma como falamos, nos gestos que repetimos sem dar conta, nas memórias que surgem sem aviso e nos fazem sorrir no meio da dor.

Talvez seja isso que nos mantém de pé: a certeza de que, embora reduzidos a pó ou cinzas, aqueles que amamos continuam a existir em nós. 

E seguimos, com o coração mais pesado, num mundo que, inevitavelmente,  vai ficando mais vazio, e onde o tempo nos lembra, cada vez mais, que a vida é uma passagem.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Recuperar o brilho

 


Estamos tristes, mas pomos um sorriso nos lábios, conversamos, rimos, relacionamo-nos, estudamos, trabalhamos, arrumamos a casa, fazemos compras.

Temos que ser fortes, uma vez e mais outra. Mesmo que isso exija um esforço fora do comum para não se desanimar. Mesmo que estejamos exaustos. Mesmo que por vezes nos estejamos a sentir à beira de um precipício.

É tão idiota isto, tão masoquista. Viramos-mos contra nós próprios.

Calamos, mas falam as dores de cabeça constantes.

Calamos, mas fala o fogo a arder dentro do estomago prenunciando uma gastrite.

Calamos, mas fica a angústia, a dor no peito, o nó na garganta e a lágrima pronta a sair.

Calamos, mas fala a insónia, as noites agitadas, os pensamentos acelerados.

Os dias sucedem-se sem descanso, numa espécie de indefinição e incerteza do lugar que ocupamos. Quem somos e porquê?!

Perdemos a vontade, perdemos a voz, e aguentamos, numa ténue esperança de que um dia se faça luz.

Mas que raio esperamos com isto? Reconhecimento? Consideração?

Tudo coisas que não se ensinam a ninguém… cada um por si, e talvez Deus por todos.

Há que aguentar, há que ser forte. Mais um dia e mais outro.

Até que não haver mais nada a dizer.

Até se atingir o auge da dor.

Até algo em nós se quebrar.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Ano "horribilis"

 

Chego a esta altura e como a maioria das pessoas faço um balanço do ano que está a finalizar. Tenho literalmente a sensação que o meu foi ano foi varrido por um furação, e que ao longo de meses estive agarrada às minhas pessoas para não ir com o vento. 


Dizem que a vida dá muitas voltas, e é verdade. Mas também é verdade que nas coisas nunca acontecem como pensamos que vão acontecer. E é verdade que nem sempre conseguimos perceber os desígnios da vida. 


2022, foi mais um ano horribilis na minha vida. Digo mais um porque anteriormente já tive anos assim, que me abalaram as estruturas, que me obrigaram a ir buscar forças às celulazinhas mais remotas que ainda existiam dentro de mim.  


E vou-vos dizer uma grande verdade, nós sofremos o triplo quando os nossos filhos são atingidos pelos furações que a vida vai trazendo. Quando somos obrigados a admitir que não temos superpoderes para os proteger das infâmias que a vida vai trazendo. Quando damos tudo de nós e ainda assim isso não é suficiente para lhes apaziguar o sofrimento. E um pouco de nós vai morrendo com cada lágrima que eles derramam. 


A vida é uma incógnita, tal como a morte. Vale pelo que fazemos dela. Pelas escolhas que fazemos. Pelas pessoas de quem nos rodeamos. Pelo amor que pomos em cada coisa que fazemos. E sem amor a vida é vazia, é apenas uma existência a fluir no tempo. 


O amor é como uma tatuagem, quando existe, está lá a sua marca, não se apaga, não é temporário, não foge, nem muda. Manifesta-se! O amor está naqueles abraços que nos dão calor e impedem o coração de parar, ou nas palavras de estima que nos moldam a identidade e alimentam a autoestima nos dias mais cinzentos.  


2022 foi um ano de revelações, muitas dolorosas, muitas inaceitáveis. Trouxe angústias e lágrimas, mas também muitas verdades. Transbordou aparências e fingimentos.   


2022 foi um ano de crescimento, de “abre olhos”, mas também de capacitação. 


Nada vai ser igual. 

terça-feira, 15 de março de 2022

A música que me acompanha no momento

A vida vai correndo, decidiu-se assim

As mãos envelhecendo, um sinal em mim

que já parece certo para deixa-lo ir

 

Mas queria que soubesse que passou em vão

O Outono, o Inverno, a Primavera, o Verão

E ontem foi esse ontem, quase que pareceu

 

E eu sei que nesse dia

Aquilo que havia

Morreu, não tinha salvação

 

A porta cá de casa

Em alto ecoava

E leu, todo o meu coração

 

E trago hoje o dia que me disse alguém

Se é para sofrer, deixa escrever e sem

Temer tudo que foi sentir-se uma vez

 

Perdida de amores, num lugar que me via

Esquecida pelas cores, duma tela antiga

Se é para ocultar, eu venho relembrar

 

Que eu sei que nesse dia

Aquilo que havia

Morreu, não tinha salvação

 

A porta cá de casa

Em letra ecoava

E leu, todo o meu coração

 

De Junho a Janeiro

Do meu ao teu correio

De quem eu sempre quis

E esteve por um triz

 

Do Porto a Lisboa

Num pássaro que voa

Foi longe que Deus quis

Que fosse por um triz

 


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Que nunca nos falte a voz


 Quando eu nasci as mulheres não votavam.

Lembro-me vagamente de ter acontecido a Revolução dos Cravos em abril de 1974. Não de pormenores desse acontecimento mas da minha mãe comentar que os militares andavam nas ruas sem perceber muito bem o que de facto estava a acontecer em Lisboa.

Mas este acontecimento, de que só tenho vagas memórias, venho alterar a minha existência enquanto cidadã e mulher. Só muito mais tarde percebi que se o mesmo não tivesse acontecido, entre muitas outras coisas, não teria a liberdade de estar aqui a escrever como estou, não poderia viajar sem autorização de pai ou marido, não poderia ter voz ativa, não poderia votar.

Também me lembro vagamente das primeiras eleições para a Assembleia Constituinte que ocorreu um ano depois. Lembro da importância desse dia, da minha mãe vestir um vestido e de eu vestir umas calças à boca-de-sino ao estilo dos ABBA, que eram a grande moda da altura. E lembro-me acima de tudo de sentir a importância dada a esse acontecimento que deu pela primeira vez voz às mulheres deste país. A história conta-nos que foram as eleições mais participadas da democracia portuguesa- 91,7%!

Eu própria votei pela primeira vez com 19 anos, e é de facto um marco da entrada na vida adulta. Admito que nem sabia bem o que estava a fazer, nem que ideologias pautavam cada uma das candidaturas, mas senti que tinha uma palavra a dizer! E ao longo dos anos nunca deixei de votar, ainda que nem sempre me identifique com algum candidato. Mas ainda assim, prefiro ser eu a optar do que deixar que outros escolham por mim.

Situações como a que está a acontecer no Afeganistão, em que às mulheres é atribuído uma importância inferior aos dos homens, em que os direitos de expressão são banidos, em que o voto e a escolha são vetados, deixam-me a pensar na fragilidade dos princípios de igualdade. Aparentemente vimemos num país que promove a mesma, mas ainda assim, considerou por exemplo necessário definir cotas para a participação das mulheres na vida politica! Pergunto-me se algum dia vão estabelecer cotas para religiões, raças, orientação sexual, etc. Confesso que cada vez que oiço aclamações de igualdade na campanha eleitoral que está a decorrer, ligo automaticamente os alarmes do contrassenso. 

Independentemente do género, cor, religião, orientação sexual, ou qualquer outra característica, somos pessoas. E é nisso está o amago da liberdade.

Que nunca nos falta a palavra.

Que aquilo que hoje assumimos como um direito adquirido nunca se desvaneça.

Que nunca nos falte a voz.