A primavera chega hoje, devagar, tímida, quase em
segredo num dia meio chuvoso, como se não quisesse interromper o silêncio deixado
pelos dias frios e sombrios. Promete trazer consigo uma luz diferente, mais firme,
como se soubesse exatamente onde tocar para despertar o que ficou adormecido.
Depois de um inverno penoso, recheado de
catástrofes, que ultrapassou todos os recordes de chuvas e ventos a que jamais tínhamos
assistido, esta estação surge como um convite. Um convite a soltar o que já não
faz sentido, a deixar para trás as sombras que insistiram a assombrar-nos, a
abrir espaço para o que pode, agora, florescer.
Há algo de profundamente simbólico neste
recomeço. As árvores não resistem à mudança, entregam-se a ela. Os campos não
questionam, simplesmente florescem e renovam-se. E talvez haja nisso uma lição
silenciosa: a de que também nós podemos recomeça, mesmo sem termos todas as
respostas, mesmo com marcas ainda recentes.
A primavera ensina-nos a caminhar para além do
inverno, dos tempos frios e sombrios. Mostra-nos que tudo muda, nada é para
sempre. Que a vida encontra sempre uma forma de se reinventar.
Que esta nova etapa seja feita de luz. De
pequenos gestos que aquecem o coração. De esperança que se instala sem pedir
licença. E que, tal como a natureza, possamos confiar que, dentro de nós,
também existe um tempo para voltar a florescer.

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