Fui educada dentro de uma fé
muito concreta, com contornos bem definidos, rituais que se repetiam ano após
ano e palavras que aprendi antes mesmo de as compreender. Cresci no seio do
catolicismo, entre missas de domingo, orações decoradas e uma ideia de Deus
que, na altura, me parecia tão absoluta quanto distante. A Páscoa, em
particular, era um dos momentos mais marcantes, carregada de simbolismo,
silêncio e respeito.
Na aldeia onde nasci, e onde os
meus avós viveram, toda a Quaresma era vivida intensamente, cheia de rituais
sagrados, missas e procissões, mas simultaneamente com um certo recolhimento
que convidava à introspeção. Lembro-me
da solenidade desses dias, do peso da Sexta-feira Santa, onde se vivia o luto
por Cristo e não se podia comer carne porque isso representava o sangue do Senhor.
E depois, o domingo, como um renascer, as cores alegres, as colchas nas janelas
e as pétalas de flores por onde a procissão passava a celebrar a ressurreição
de Cristo.
Houve, no entanto, uma fase da
minha vida em que tudo isso se partiu. A perda de familiares próximos trouxe
uma dor difícil de traduzir, um vazio que nenhuma palavra conseguia alcançar.
E, nesse lugar de ausência, veio a revolta. Zanguei-me com Deus. Zanguei-me com
a Igreja. Senti-me traída por uma fé que, até então, me tinha sido apresentada
como abrigo. Afastei-me. Questionei. Duvidar tornou-se quase uma forma de
sobrevivência.
Mas, curiosamente, foi nesse
mesmo vazio que nasceu uma outra necessidade, mais silenciosa, mais íntima. A
necessidade de encontrar sentido, de me ligar a algo maior, mesmo que já não
soubesse dar-lhe um nome. Quando tudo parece desmoronar, há uma parte de nós
que continua a ter de sobreviver, ainda que com dor. E foi aí que comecei a
reconstruir a minha relação com o sagrado, fora das estruturas que antes
conhecia.
Com o tempo, fui-me afastando das
formas rígidas e aproximando-me mais da essência. Sou uma pessoa de fé. Acredito que somos muito mais do que a vida medíocre
que por vezes vivemos. Acredito que há algo mais depois do fim. Não deixei de
procurar o sagrado, mas deixei de o procurar num único lugar. Sinto-me mais
espiritual do que religiosa.
Não rejeito aquilo que me foi
dado, pelo contrário, reconheço-lhe valor, raiz, identidade. E tenho muita, muita
saudade das pessoas que partilharam esses momentos comigo e já partiram.
Mas aprendi que a fé pode ser mais ampla, mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais profunda. Comecei a olhar para outras
religiões com curiosidade e respeito. Percebi que, por trás de nomes
diferentes, rituais distintos e histórias próprias, existe muitas vezes a mesma
busca: sentido, ligação, transcendência, amor.
Para mim, a Páscoa, deixou de ser apenas um acontecimento religioso. É um tempo de renovação, de deixar morrer o que já não serve, de abrir espaço ao que quer nascer. É um convite à introspeção, mas também à esperança.
Talvez
acenda umas velas, vou certamente pensar em quem já partiu, e talvez me permita
estar em silêncio comigo mesma, e, nesse silêncio, talvez encontre algo que
reconheço como sagrado, porque em cada um de nós há uma energia divina. Só precisamos de a encontrar.
Páscoa Feliz!

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