quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Páscoa que há em nós

 

Fui educada dentro de uma fé muito concreta, com contornos bem definidos, rituais que se repetiam ano após ano e palavras que aprendi antes mesmo de as compreender. Cresci no seio do catolicismo, entre missas de domingo, orações decoradas e uma ideia de Deus que, na altura, me parecia tão absoluta quanto distante. A Páscoa, em particular, era um dos momentos mais marcantes, carregada de simbolismo, silêncio e respeito.

Na aldeia onde nasci, e onde os meus avós viveram, toda a Quaresma era vivida intensamente, cheia de rituais sagrados, missas e procissões, mas simultaneamente com um certo recolhimento que convidava à introspeção.  Lembro-me da solenidade desses dias, do peso da Sexta-feira Santa, onde se vivia o luto por Cristo e não se podia comer carne porque isso representava o sangue do Senhor. E depois, o domingo, como um renascer, as cores alegres, as colchas nas janelas e as pétalas de flores por onde a procissão passava a celebrar a ressurreição de Cristo.

Houve, no entanto, uma fase da minha vida em que tudo isso se partiu. A perda de familiares próximos trouxe uma dor difícil de traduzir, um vazio que nenhuma palavra conseguia alcançar. E, nesse lugar de ausência, veio a revolta. Zanguei-me com Deus. Zanguei-me com a Igreja. Senti-me traída por uma fé que, até então, me tinha sido apresentada como abrigo. Afastei-me. Questionei. Duvidar tornou-se quase uma forma de sobrevivência.

Mas, curiosamente, foi nesse mesmo vazio que nasceu uma outra necessidade, mais silenciosa, mais íntima. A necessidade de encontrar sentido, de me ligar a algo maior, mesmo que já não soubesse dar-lhe um nome. Quando tudo parece desmoronar, há uma parte de nós que continua a ter de sobreviver, ainda que com dor. E foi aí que comecei a reconstruir a minha relação com o sagrado, fora das estruturas que antes conhecia.

Com o tempo, fui-me afastando das formas rígidas e aproximando-me mais da essência. Sou uma pessoa de fé.  Acredito que somos muito mais do que a vida medíocre que por vezes vivemos. Acredito que há algo mais depois do fim. Não deixei de procurar o sagrado, mas deixei de o procurar num único lugar. Sinto-me mais espiritual do que religiosa.

Não rejeito aquilo que me foi dado, pelo contrário, reconheço-lhe valor, raiz, identidade. E  tenho muita, muita saudade das pessoas que partilharam esses momentos comigo e já partiram. 

Mas aprendi que a fé pode ser mais ampla, mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais profunda. Comecei a olhar para outras religiões com curiosidade e respeito. Percebi que, por trás de nomes diferentes, rituais distintos e histórias próprias, existe muitas vezes a mesma busca: sentido, ligação, transcendência, amor.

Para mim, a Páscoa, deixou de ser apenas um acontecimento religioso. É um tempo de renovação, de deixar morrer o que já não serve, de abrir espaço ao que quer nascer. É um convite à introspeção, mas também à esperança.

Talvez acenda umas velas, vou certamente pensar em quem já partiu, e talvez me permita estar em silêncio comigo mesma, e, nesse silêncio, talvez encontre algo que reconheço como sagrado, porque em cada um de nós há uma energia divina. Só precisamos de a encontrar.

Páscoa Feliz!


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