Há quase um
ano, a minha casa deixou de ser apenas um lugar. Deixou de ser o espaço seguro
onde tudo fazia sentido e onde o mundo lá fora ficava, simbolicamente, à porta.
Numa ausência que parecia banal, alguém entrou, mexeu nas minhas coisas,
invadiu a minha intimidade. E, de repente, aquilo que era meu deixou de o ser
por instantes, e isso foi suficiente para mudar muita coisa dentro de mim.
Mas não foi
apenas um assalto silencioso. Houve um momento de confronto. Cruzei-me com o
ladrão à saída da minha própria casa. Um instante que ainda hoje me atravessa.
Houve tensão, houve medo real, palpável. Houve violência naquele encontro, e a
imagem dele a apontar-me uma faca ficou gravada em mim de uma forma difícil de
explicar. Foi o momento em que tudo deixou de ser apenas material e passou a
ser uma ameaça direta à minha integridade, à minha vida.
E depois, o
que encontrei lá dentro. Não foi só a ausência de objetos. Foi um cenário de
destruição. Um rasto de desrespeito e caos. Coisas remexidas, partidas,
desfeitas. Portas arrancadas, como se até os limites físicos da casa tivessem
sido violentados. Cada divisão parecia contar uma história de invasão, como se
o espaço tivesse sido despido da sua dignidade.
Não foi apenas
o que levaram. Foi o que ficou. A sensação de violação, de insegurança, de
perda de controlo. Durante muito tempo, qualquer barulho parecia um alerta,
qualquer ausência um risco. A casa, que antes acolhia, passou a exigir
vigilância. E eu, que antes confiava, passei a desconfiar.
Com o passar
dos meses, as marcas não ficaram apenas na memória, passaram também para o
corpo. Comecei a ter ataques de pânico inesperados, daqueles que chegam sem
aviso e tomam conta de tudo: o coração acelera, a respiração encurta, e uma
sensação de perigo iminente instala-se, mesmo quando nada está a acontecer. A ansiedade
tornou-se uma presença constante, como um ruído de fundo difícil de silenciar.
Dormir, que
antes era um refúgio, deixou de o ser. O sono tornou-se leve, fragmentado,
inquieto. Muitas noites são interrompidas por pesadelos que me devolvem, de
forma quase cruel, àquele momento, à invasão, ao confronto, ao medo. Acordo
sobressaltada, com o corpo tenso, como se tudo estivesse a acontecer outra vez.
Agora, quase
um ano depois, quando parecia que tudo começava lentamente a assentar, surge o
julgamento. Fui chamada como testemunha. E com essa chamada vieram também
memórias que eu tentei organizar, arrumar, talvez até esquecer um pouco. É como
se abrisse uma porta que eu tinha fechado com esforço.
Sinto-me
inquieta, ansiosa, como se tivesse de reviver algo que ainda não cicatrizou
completamente. Não é apenas ir a tribunal. É voltar ao momento, às emoções, ao
medo. É olhar, mesmo que indiretamente, para quem esteve na origem de tudo
isto.
Ao mesmo
tempo, há uma parte de mim que sabe que este passo faz parte de um processo.
Que falar, testemunhar, dar voz ao que aconteceu também é uma forma de
recuperar algum controlo, de não deixar que o silêncio apague o impacto do que
vivi.
Mas isso não
torna tudo mais fácil.
Há um
equilíbrio difícil entre a necessidade de justiça e o peso emocional de
reviver. E é nesse espaço que me encontro agora: entre o passado que insiste em
reaparecer e a vontade de seguir em frente, com mais tranquilidade, mais
segurança e, sobretudo, mais paz. Desejo profundamente que seja feita justiça.

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