quarta-feira, 3 de junho de 2026

De capa e batina

Eu tenho uma teoria muito séria: alguém mexeu no relógio da minha vida enquanto eu estava distraída a fazer lanches, a procurar meias desaparecidas e a dizer “leva um casaco que está frio”. Não é possível haver outra explicação.

Porque ainda ontem a minha filha era um bebé.
Um bebé! Pequeno, redondinho, com aquele cheiro maravilhoso de creme e bolacha Maria esmagada na roupa. Ainda ontem eu andava com um saco gigante atrás dela, cheio de fraldas, chupetas, biberões, toalhitas e metade da casa às costas.

E agora? Agora vai ser licenciada.

Licenciada.

Uma pessoa passa anos a tentar ensinar uma criança a não comer plasticina, a não aceitar coisas de estranhos, a perceber que a gata não quer fazer penteados e usar ganchos boneca… e, de repente, essa mesma criança aparece-nos à frente a falar de carreira profissional, objetivos de vida e futuro.

Como?!

A sério, eu desconfio profundamente desta velocidade do tempo. Isto não foi natural. Houve claramente aqui uma falha temporal qualquer. Uma espécie de máquina do tempo escondida entre os TPC, as festas da escola e as máquinas de roupa para lavar.

Porque eu pisquei os olhos.

Foi só isso!

Eu pisquei os olhos e a criança que andava pela casa a gatinhar, com asas de fada, e um pé descalço transformou-se numa mulher adulta que vai à bênção das fitas.

À bênção das fitas!
Uma cerimónia onde uma mãe vai emocionalmente frágil, mas tenta fingir estabilidade enquanto tira 420 fotografias iguais.

E ela está enorme. Linda. Independente. Com opinião própria.
O que também é impressionante, porque houve uma fase da vida dela em que chorava descontroladamente porque eu  mandei maçã em vez de pêra para o lanche.

Agora fala de futuro com uma calma assustadora, enquanto eu continuo emocionalmente presa ao tempo em que ela me perguntava se a lua nos seguia de carro. Em que dizíamos "Bom dia Senhoras Gaivotas# a caminho da escola todas as manhãs, em que jogávamos ao carro amarelo e a outras coisas parvas.

E o mais estranho é que nós, mães, nunca acompanhamos verdadeiramente a idade dos filhos. Por dentro, continuamos a achar que eles têm sete anos. Só que depois olhamos para eles… e estão de capa e batina.

Entretanto, eu continuo sem perceber onde foi parar aquela menina pequenina que dormia agarrada a mim. Mas suspeito que ela ainda esteja ali, escondida atrás daquela mulher maravilhosa que cresceu depressa demais.

E depois há aquela parte absolutamente humilhante da maternidade: perceber que a filha já sabe mais coisas do que nós.

Porque houve um tempo em que eu era a Wikipédia cá de casa. Eu sabia tudo. Tudo, mesmo sem fazer ideia nenhuma!

Agora ela olha para mim com aquele ar de adulta instruída e diz coisas como:
“Isso não é bem assim, mãe…”E eu fico ali, a pensar:
“Olha esta miúda… eu limpei-te o nariz durante anos.”

E a tecnologia? Nem vamos falar da tecnologia.
Eu ainda me lembro de lhe ensinar a segurar num lápis. Hoje ela resolve problemas no telemóvel em três segundos enquanto eu continuo a carregar em botões aleatórios e a fechar coisas sem querer.

E agora chega a bênção das fitas.
E claro que eu vou chorar.
Vou chorar quando a vir entrar. Vou chorar quando ouvir a música. Vou chorar nas fotografias. Provavelmente vou chorar porque alguém espirrou ao meu lado. Mas vou fingir dignidade. Aquela dignidade típica das mães emocionadas que dizem:
“Eu estou ótima!”… enquanto limpam lágrimas com guardanapos de café.

Ser mãe é um pouco isto, passar metade da vida cansada e a outra metade emocionada. É querer que os filhos cresçam felizes, e ao mesmo tempo desejar secretamente que ainda peçam para dormir conosco quando têm medo da trovoada.

E por mais adulta que ela seja agora, por mais independente, inteligente e preparada para a vida, para mim haverá sempre uma parte dela que continua pequenina.

A mesma menina que me chamava a meio da noite.
A mesma menina que achava que um beijo resolvia tudo.
A mesma menina que, sem saber, transformou completamente a minha vida desde o primeiro instante em que lhe peguei ao colo.

Só que agora… de capa e batina.


 

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