Eu tenho uma teoria muito séria: alguém mexeu no
relógio da minha vida enquanto eu estava distraída a fazer lanches, a procurar
meias desaparecidas e a dizer “leva um casaco que está frio”. Não é possível
haver outra explicação.
Porque ainda ontem a
minha filha era um bebé.
Um bebé! Pequeno, redondinho, com aquele cheiro maravilhoso de creme e bolacha
Maria esmagada na roupa. Ainda ontem eu andava com um saco gigante atrás dela,
cheio de fraldas, chupetas, biberões, toalhitas e metade da casa às costas.
E agora? Agora vai
ser licenciada.
Licenciada.
Uma pessoa passa anos
a tentar ensinar uma criança a não comer plasticina, a não aceitar coisas de
estranhos, a perceber que a gata não quer fazer penteados e usar ganchos
boneca… e, de repente, essa mesma criança aparece-nos à frente a falar de
carreira profissional, objetivos de vida e futuro.
Como?!
A sério, eu
desconfio profundamente desta velocidade do tempo. Isto não foi natural. Houve
claramente aqui uma falha temporal qualquer. Uma espécie de máquina do tempo
escondida entre os TPC, as festas da escola e as máquinas de roupa para lavar.
Porque eu pisquei
os olhos.
Foi só isso!
Eu pisquei os olhos
e a criança que andava pela casa a gatinhar, com asas de fada, e um pé descalço
transformou-se numa mulher adulta que vai à bênção das fitas.
À bênção das fitas!
Uma cerimónia onde uma mãe vai emocionalmente frágil, mas tenta fingir
estabilidade enquanto tira 420 fotografias iguais.
E ela está enorme.
Linda. Independente. Com opinião própria.
O que também é impressionante, porque houve uma fase da vida dela em que
chorava descontroladamente porque eu mandei maçã em vez de pêra para o
lanche.
Agora fala de
futuro com uma calma assustadora, enquanto eu continuo emocionalmente presa ao
tempo em que ela me perguntava se a lua nos seguia de carro. Em que dizíamos "Bom
dia Senhoras Gaivotas# a caminho da escola todas as manhãs, em que jogávamos ao
carro amarelo e a outras coisas parvas.
E o mais estranho é que nós, mães, nunca acompanhamos verdadeiramente a idade dos filhos. Por dentro, continuamos a achar que eles têm sete anos. Só que depois olhamos para eles… e estão de capa e batina.
Entretanto, eu
continuo sem perceber onde foi parar aquela menina pequenina que dormia
agarrada a mim. Mas suspeito que ela ainda esteja ali, escondida atrás daquela
mulher maravilhosa que cresceu depressa demais.
E depois há aquela
parte absolutamente humilhante da maternidade: perceber que a filha já sabe
mais coisas do que nós.
Porque houve um tempo
em que eu era a Wikipédia cá de casa. Eu sabia tudo. Tudo, mesmo sem fazer ideia nenhuma!
Agora ela olha para
mim com aquele ar de adulta instruída e diz coisas como:
“Isso não é bem assim, mãe…”E eu fico ali, a pensar:
“Olha esta miúda… eu limpei-te o nariz durante anos.”
E a tecnologia? Nem
vamos falar da tecnologia.
Eu ainda me lembro de lhe ensinar a segurar num lápis. Hoje ela resolve
problemas no telemóvel em três segundos enquanto eu continuo a carregar em
botões aleatórios e a fechar coisas sem querer.
E agora chega a
bênção das fitas.
E claro que eu vou chorar.
Vou chorar quando a vir entrar. Vou chorar quando ouvir a música. Vou chorar
nas fotografias. Provavelmente vou chorar porque alguém espirrou ao meu lado. Mas
vou fingir dignidade. Aquela dignidade típica das mães emocionadas que dizem:
“Eu estou ótima!”… enquanto limpam lágrimas com guardanapos de café.
Ser mãe é um pouco
isto, passar metade da vida cansada e a outra metade emocionada. É querer que os filhos cresçam felizes, e ao mesmo tempo desejar secretamente
que ainda peçam para dormir conosco quando têm medo da trovoada.
E por mais adulta
que ela seja agora, por mais independente, inteligente e preparada para a vida,
para mim haverá sempre uma parte dela que continua pequenina.
A mesma menina que
me chamava a meio da noite.
A mesma menina que achava que um beijo resolvia tudo.
A mesma menina que, sem saber, transformou completamente a minha vida desde o
primeiro instante em que lhe peguei ao colo.
Só que agora… de capa e batina.

Sem comentários:
Enviar um comentário