terça-feira, 15 de março de 2022

A música que me acompanha no momento

A vida vai correndo, decidiu-se assim

As mãos envelhecendo, um sinal em mim

que já parece certo para deixa-lo ir

 

Mas queria que soubesse que passou em vão

O Outono, o Inverno, a Primavera, o Verão

E ontem foi esse ontem, quase que pareceu

 

E eu sei que nesse dia

Aquilo que havia

Morreu, não tinha salvação

 

A porta cá de casa

Em alto ecoava

E leu, todo o meu coração

 

E trago hoje o dia que me disse alguém

Se é para sofrer, deixa escrever e sem

Temer tudo que foi sentir-se uma vez

 

Perdida de amores, num lugar que me via

Esquecida pelas cores, duma tela antiga

Se é para ocultar, eu venho relembrar

 

Que eu sei que nesse dia

Aquilo que havia

Morreu, não tinha salvação

 

A porta cá de casa

Em letra ecoava

E leu, todo o meu coração

 

De Junho a Janeiro

Do meu ao teu correio

De quem eu sempre quis

E esteve por um triz

 

Do Porto a Lisboa

Num pássaro que voa

Foi longe que Deus quis

Que fosse por um triz

 


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Que nunca nos falte a voz


 Quando eu nasci as mulheres não votavam.

Lembro-me vagamente de ter acontecido a Revolução dos Cravos em abril de 1974. Não de pormenores desse acontecimento mas da minha mãe comentar que os militares andavam nas ruas sem perceber muito bem o que de facto estava a acontecer em Lisboa.

Mas este acontecimento, de que só tenho vagas memórias, venho alterar a minha existência enquanto cidadã e mulher. Só muito mais tarde percebi que se o mesmo não tivesse acontecido, entre muitas outras coisas, não teria a liberdade de estar aqui a escrever como estou, não poderia viajar sem autorização de pai ou marido, não poderia ter voz ativa, não poderia votar.

Também me lembro vagamente das primeiras eleições para a Assembleia Constituinte que ocorreu um ano depois. Lembro da importância desse dia, da minha mãe vestir um vestido e de eu vestir umas calças à boca-de-sino ao estilo dos ABBA, que eram a grande moda da altura. E lembro-me acima de tudo de sentir a importância dada a esse acontecimento que deu pela primeira vez voz às mulheres deste país. A história conta-nos que foram as eleições mais participadas da democracia portuguesa- 91,7%!

Eu própria votei pela primeira vez com 19 anos, e é de facto um marco da entrada na vida adulta. Admito que nem sabia bem o que estava a fazer, nem que ideologias pautavam cada uma das candidaturas, mas senti que tinha uma palavra a dizer! E ao longo dos anos nunca deixei de votar, ainda que nem sempre me identifique com algum candidato. Mas ainda assim, prefiro ser eu a optar do que deixar que outros escolham por mim.

Situações como a que está a acontecer no Afeganistão, em que às mulheres é atribuído uma importância inferior aos dos homens, em que os direitos de expressão são banidos, em que o voto e a escolha são vetados, deixam-me a pensar na fragilidade dos princípios de igualdade. Aparentemente vimemos num país que promove a mesma, mas ainda assim, considerou por exemplo necessário definir cotas para a participação das mulheres na vida politica! Pergunto-me se algum dia vão estabelecer cotas para religiões, raças, orientação sexual, etc. Confesso que cada vez que oiço aclamações de igualdade na campanha eleitoral que está a decorrer, ligo automaticamente os alarmes do contrassenso. 

Independentemente do género, cor, religião, orientação sexual, ou qualquer outra característica, somos pessoas. E é nisso está o amago da liberdade.

Que nunca nos falta a palavra.

Que aquilo que hoje assumimos como um direito adquirido nunca se desvaneça.

Que nunca nos falte a voz.

sábado, 18 de setembro de 2021

Tempo


 

O tempo é algo estranho.

Quando era miúda nunca mais chegava a crescida! Olhava para as pessoas com 35/40 anos e pensava “coitadinhos, tão velhos!”.

Depois fui passando pelo tempo e o tempo por mim. E percebi que a velocidade com que passava dependia de como me sentia feliz, triste, ansiosa ou qualquer outro sentimento que definisse o meu humor.

Ainda hoje penso “ainda falta um ano para algo acontecer”, como se esse algo estivesse a anos-luz. Mas também olho para trás e penso que poderia ter viajado numa máquina do tempo, porque cheguei aqui num ápice.

Quando olho para a minha filha, relembro os tempos que lhe dava colo e ela cabia aninhada nos meus braços, num encaixe perfeito como se fossemos legos do mesmo material. Hoje, já quase uma mulher, vejo nela um espelho daquilo que um dia fui, e não posso deixar de me intrigar como, sendo diferentes, somos tão parecidas. Um outro tempo, mas no mesmo comprimento de onda!

Não sei quanto tempo me resta, como aliás ninguém sabe. Mas se chegar velhinha, o meu desejo é de não perder a alma de menina e a capacidade de me surpreender com aquilo que o tempo me dá.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

22 Anos ao serviço da cidade




 

Há 22 anos iniciava uma jornada ao serviço da cidade de Lisboa. As minhas primeiras instalações foram no Martim Moniz, com vista para o Castelo de S. Jorge e para o Hotel Mundial, mas também para uma diversidade cultural enormíssima, que de alguma forma que começou a abrir horizontes. Entre os bairros históricos, as culturas locais, os emigrantes que procuravam uma vida melhor ou simplesmente sobreviver foi apreendendo as características desta cidade simultaneamente integradora e discriminadora.

Os anos foram passando, as experiências foram aumentando e o meu sentido de dever para com a cidade e as suas gentes também foi crescendo.

Depois passei a trabalhar com as escolas, um dos eixos da sociedade. Educar para melhorar o futuro das crianças, da família, da cidade e do mundo. Aprendi novamente a ver as coisas pelos olhos de uma criança, e o quanto tudo sabe melhor quando se põe o coração naquilo que fazemos.

Hoje, em data de aniversário do início da minha jornada ao serviço desta cidade, começo uma nova etapa que de alguma forma vem juntar os dois eixos das experiências que tive no passado.

Vinte e dois anos na “Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa".

 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Eutanásia- no limbo da vida e da morte


Há um tempo uma grande senhora da política portuguesa disse-me "Nesta vida, tudo é política, até a forma como se nasce e como se morre. Ninguém diga que não gosta de política porque em toda a sua vida as decisões que enfrentar serão moldadas pelas leis que nasceram da política.”

Ontem foi aprovada a despenalização da Eutanásia em Portugal. Depois da despenalização do aborto, que maior confirmação pode haver de que esta senhora está certa?!

A vida e a morte são inevitáveis para todos nós. Mas a liberdade de escolha sobre o fim é algo que muda para sempre no nosso país. 

Não podemos fugir da morte. Inevitavelmente em algum lugar, em algum momento temos que a enfrentar. Agora podemos também escolhe-la em situações extremas em que a vida deixe de fazer sentido, podendo ter alguém ao lado para nos ajudar nesse momento final.

Na minha vida já enfrentei a morte mais vezes do que gostaria. Perdi pessoas que sofreram horrores com doenças prolongadas e cuja vida se tornou tão dolorosa que até a morte se apresentava como uma grande amiga. Vidas perdidas antes de o serem. Vidas que me obrigaram a confrontar coma a impotência da minha própria existência… Não morreram por eutanásia, mas teriam sido candidatos a esta situação se as leis da altura o tivessem permitido.

Mas hoje não posso deixar de refletir sobre outras vidas sem cor e sentido, que se limitam a ser meros fôlegos à espera do momento final. Pessoas sem graves problemas de saúde, mas que quase deixam de existir, numa espécie de limbo entre a presença e ausência.

Hoje foi dada uma oportunidade de escolha às pessoas, mas que nunca seja a escolha da morte a consequência de falta de condições que promovam o bem-estar e o conforto. Que a escolha do adeus não seja condicionada por falhas nas respostas a quem sofre física e mentalmente. Que a decisão do fim nunca nasça por conveniências dum sistema coxo.

Porque a eutanásia só é uma verdadeira opção se as políticas que apoiam a morte forem acompanhadas pelas políticas que apoiam a vida.  



quinta-feira, 4 de abril de 2019

Desafios e Conquistas



Já trabalho há tantos anos em educação e sem dúvida hoje tive a experiência mais espetacular e gratificante deste tempo todo. Aconteceu em sala de aula com uma turma daquelas que oferece diariamente um verdadeiro desafio aos professores pelo ambiente onde está inserida a escola, pelos comportamentos indisciplinados dos alunos e pelos maus resultados escolares.

Confesso que quando me foi alocada esta turma para desenvolver um programa de empreendorismo que explora a localização de recursos naturais, como circulam entre os diferentes países e como são gerados negócios que produzem bens e serviços para os consumidores, fiquei assustada com tamanho desafio. Mas lá fui eu.

Na 1ª sessão caí ali de paraquedas, correu razoavelmente mas fiquei impressionada com a falta de conhecimentos destes alunos e com as suas posturas desafiantes em sala de aula. Na 2ª sessão já sabia para o que ia. Adaptei o programa à realidade destes miúdos, e até tive algumas boas surpresas porque conseguiram desenvolver tarefas mesmo sem conseguir explicar porque as faziam. Deparei-me com imensas dificuldades de expressão e autoestimas pelas ruas da amargura. Mas também encontrei um sentido de lógica pratico elevado e fora do comum.

Hoje foi a 3ª sessão. O programa era exigente e apelava a conhecimentos que pelo que me tinha deparado nas sessões anteriores achei que os alunos não tinham. Preparei um Plano B. Se não estiver a funcionar bem de uma maneira tentamos de outra.

Hoje tudo foi diferente. Comecei a aula a dizer. “Bom dia. Hoje vamos apenas brincar!”. Eis que de fez um silêncio absoluto, seguido de uma rapariga que contesta “Brincar? Nós não vimos para a escola brincar!” Respondo “Sim mas hoje é isso que amos fazer, a brincar a também se aprende” e comecei a distribuir material de um jogo em tudo semelhante ao Trivial Pursuit. Dividi grupos, expliquei brevemente como se jogava e deixei-os apenas com a frase “Quem conseguir ganhar um cartão de cada cor, ganha o jogo!”

Em sala está comigo a diretora de turma, que fica completamente estupefacta com a forma como os alunos se empenharam, falaram uns com os outros sem as agressões habituais, e até respondiam corretamente às questões dos cartões coloridos. Aos meus olhos parecia estar a acordar dum pesadelo de causa perdida.

Um aluno que já reprovou duas vezes, que este ano letivo está em risco de chumbar por faltas, que deixa testes quase em branco, ia respondendo invariavelmente corretamente às questões que lhe iam saindo nos diversos temas.  Foi o primeiro a conseguir o leque completo de cartões coloridos. E foram-lhe colocadas questões às quais nunca respondeu numa aula comum. Como é que este aluno, que tem um historial escolar tão mau consegue num contexto diferente destacar-se pela positiva?

Pergunto-me, que escola temos nós que não chega aos alunos? Será que as avaliações têm mesmo que ser testes?  Hoje tive a prova de que não, que por vezes é apenas preciso sair da caixa, fazer diferente, criar contextos que permitam que o melhor se revele.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Pessoas Incomparáveis



Hoje farias 66 anos. Tiveste uma vida curta e nada fácil. Mas como disse Fernando Pessoa “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Tu foste, e ainda és, uma pessoa incomparável. Daquelas que tocou o coração das pessoas que tiveram o privilégio de passar pela tua vida. Há poucas pessoas de coração enorme, maior do que a vida. O teu era gigante, sempre a transbordar de amor.

Eu tive o privilégio de te ter como mãe. Um curto espaço de tempo, mas com uma sementeira tão grande que ainda hoje colho os frutos de tudo o que me ensinaste. Muito do que sou devo-o a ti. E sou muito grata por te ter tido.